quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Com o sonho europeu, africanos são vendidos em mercado de escravos na Líbia

Migrantes africanos chegam à base naval de Trípoli, na Líbia


Confiando em atravessadores que prometem levá-los à Europa, viagem de muitos africanos acaba na Líbia, onde são vendidos como escravos, torturados e até mortos
"Oitocentos dinares! Mil dinares! Mil e cem dinares! Quem dá mais?" Por 1.200 dinares líbios – cerca de R$ 2,6 mil reais – o negócio é finalmente fechado. Não é um carro, por exemplo, que está sendo vendido, e sim um grupo de jovens assustados provenientes da África Subsaariana.

As imagens do leilão foram gravadas neste ano por um smartphone num mercado na Líbia, e chegaram à emissora norte-americana CNN, que investigou o fato. Em vários locais no interior do país e na costa do Mediterrâneo, os jornalistas encontraram verdadeiros mercados de escravos.

As cenas, agora divulgadas mundo afora, expõem o que ONGs da região já denunciavam há meses: a situação de milhares de migrantes africanos na Líbia, estuprados, torturados e escravizados.

As imagens da CNN se propagaram rapidamente nas redes sociais e provocaram uma onda de indignação mundial na última semana.


Foto: Fadel Senna (AFP)

Manifestações em países africanos e europeus reclamavam ação contra o mercado de escravos 


O secretário-geral da ONU, António Guterres, se disse horrorizado, o presidente da União Africana (UA), Alpha Condé, indignado e a União Europeia, enojada.

"Hipocrisia", denuncia o senegalês Hamidou Anne, analista do think tank África de las Ideas, já que, "com exceção do cidadão comum, todo mundo sabia, os governantes, as organizações internacionais, os líderes políticos" sobre a situação na Líbia.

"A tomada de refém, a violência, a tortura, os estupros são normais na Líbia, e da escravidão já se fala faz tempo", insiste Alioune Tine, diretor para África ocidental e central na Anistia Internacional, com sede em Dacar.

A Líbia, país imerso no caos, se tornou um importante ponto de passagem para os migrantes que tentam chegar à Europa pelo Mediterrâneo. Muitos deles são vítimas dos traficantes de seres humanos.

"Na Líbia, os negros não têm nenhum direito", disse em setembro Karamo Keita, um jovem da Gâmbia de 27 anos, reenviado a seu país.
"Fomos levados a várias fazendas onde nosso carcereiro líbio nos vendia como escravos."

"A vida na Líbia era um inferno", disse Souleymane, um jovem migrante da Costa do Marfim, em conversa com a agência de notícias DW.

Ele passou meses detido no país norte-africano. Somente por um acaso, Souleymane conseguiu retornar a seu país com o apoio da Organização Internacional para as Migrações: "Vivia em constante medo de ser apanhado por uma milícia e acabar sendo vendido como escravo."

O tráfico de seres humanos na região se intensificou nos últimos anos, apontou Othman Belbeisi, chefe da missão da ONU na Líbia.

Segundo Belbeisi, os migrantes passam até três meses detidos e explorados por milícias em calabouços na Líbia: "O problema é que a maioria dos migrantes que fogem por motivos econômicos não possui nenhum documento. Eles entram na Líbia através de fronteiras não oficiais e se tornam completamente dependentes dos atravessadores. E eles então são muitas vezes sequestrados – e se o dinheiro do resgate não for pago, são vendidos, torturados ou até mortos."

Desde o mês de abril, a Organização Internacional para as Migrações informava sobre a existência de "mercados de escravos" na Líbia. "Se transformam em mercadorias para comprar, vender e jogar fora quando já não valem mais nada", comentou Leonard Doyle, porta-voz da OIM em Genebra.


'Torturas e extorsões'

Enquanto as rotas legais para a Europa não se tornarem mais acessíveis, a motivação de jovens africanos para se arriscar na jornada clandestina permanece.

A presidente do Médicos Sem Fronteiras, Joanne Liu, também denunciou em setembro, em uma carta aberta aos governos europeus, "uma empresa próspera para sequestro, tortura e extorsão" na Líbia.
"Em seus esforços por conter o fluxo (migratório), os governos europeus estarão dispostos a assumir o preço do estupro, da tortura e da escravidão? Não podemos dizer que não sabíamos disso."
Joanne Liu, presidente do Médicos sem Fronteiras


Segundo dados da OIM, neste ano, mais de 160 mil migrantes chegaram à Europa através do Mediterrâneo. Estimativas de funcionários da ONU na Líbia apontam que outras centenas de milhares aguardam a travessia para a Europa.

Na semana passada, o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al Hussein, denunciou a deterioração das condições de detenção de migrantes no país, qualificando de desumana a política da UE que consiste "em ajudar os guarda-costeiros líbios a interceptar e reenviar os migrantes".

Uma acusação rejeitada por Bruxelas, que destaca seus esforços para "salvar vidas" no mar e "facilitar o acesso da OIM e da Agência da ONU para os Refugiados (Acnur) aos centros de detenção na Líbia para que possa aumentar o nível de assistência e organizar regressos voluntários".

Para Alioune Tine, a Europa "tem uma responsabilidade fundamental no desastre atual, mas não é a única". "Os países africanos não fazem nada para reter os jovens, para dar trabalho a eles. Não têm política de migração", lamenta.


Protestos

Ao longo da semana, foram feitos protestos contra a escravidão de migrantes em diversos lugares do mundo, como Marrocos, França, Itália e Senegal.

Políticos especialmente na África Ocidental, de onde vem a maioria dos migrantes, demonstraram indignação e pediram explicações da Líbia.

Mahamadou Issoufou, presidente do Níger, criticou duramente a situação na Líbia. Exigindo que a Corte Internacional de Justiça se ocupe do comércio escravagista no país do Norte da África.

O caso deve fazer parte da agenda da próxima cúpula da União Africana, que se realizará nos dias 29 e 30 de novembro na Costa do Marfim.


40 milhões de escravos no mundo

A venda de migrantes na Líbia não é um caso isolado: mais de 40 milhões de pessoas no mundo vivem atualmente em regime de escravidão, segundo um estudo conduzido em 2016.

A noção de escravidão moderna engloba o trabalho forçado, que afeta 25 milhões de pessoas, e o casamento forçado (15 milhões). Mas esses números são considerados subestimados, ressalta a Organização Mundial do Trabalho, a Organização Internacional para as Migrações e o grupo de defesa dos direitos humanos Walk free Foundation que realizaram a estimativa em conjunto.

"Vários estudos estabeleceram claramente ligações entre migrações e o tráfico de seres humanos", ressalta este estudo, que evoca as rotas percorridas pelos migrantes.

Das 25 milhões, cerca de 5 milhões de pessoas são forçadas a se prostituir.

Fonte: Portal UOL Notícias

O que os dados sobre trabalho infantil revelam sobre desigualdade de gênero


O IBGE divulgou nesta quarta-feira (29) uma pesquisa mostrando que quase 1 milhão de crianças e adolescentes trabalham de forma irregular no Brasil. Segundo dados da PNAD Contínua sobre Trabalho Infantil, 1,8 milhão de crianças, com idades entre 5 e 17 anos, trabalhavam no Brasil em 2016. Destas, 998 mil (54%) estavam em situação de trabalho infantil irregular, ou por terem menos de 13 anos (190 mil pessoas) ou por não terem registro em carteira, exigido para maiores de 14 anos (808 mil). A legislação brasileira não permite que crianças menores de 13 anos trabalhem. As maiores de 14 podem trabalhar de forma registrada.

Além de investigar o trabalho em atividades consideradas produtivas, como agricultura e comércio, a PNAD também analisou o trabalho considerado “não produtivo”, ou o trabalho doméstico - aquele que não entra no cálculo do PIB (Produto Interno Bruto). A pesquisa mostra que mais de 20 milhões de crianças realizam trabalhos domésticos - que a princípio não são ilegais. Segundo o IBGE, não existe uma quantidade máxima de horas que as crianças podem se dedicar ao cuidado de pessoas (como irmãos) ou tarefas domésticas. Mas isso não pode colocar a criança em situações perigosas ou prejudicar seus estudos e lazer.

Nesse quesito, os dados ilustram como o trabalho infantil reflete a dinâmica de gênero do mercado de trabalho no mundo adulto. Entre as crianças que trabalham de forma irregular em atividades produtivas, a maioria é menino (65%). No trabalho doméstico, essa situação é equilibrada (metade meninos, metade meninas). Mas as meninas dedicam mais horas às tarefas de cuidado e afazeres domésticos. Em média, elas gastam 9,6 horas por semana, enquanto os meninos gastam 6,9. Para o grupo com idades entre 14 e 17 anos, elas dedicam, em média, 12,3 horas por semana nesse tipo de tarefa, enquanto os meninos gastam 8,1 horas por semana. “Isso reproduz a situação ocupacional dos pais, em que a população feminina é predominante no trabalho doméstico e adulto e há maior participação de homens no trabalho produtivo”, disse ao Nexo Flávia Vinhaes, analista do IBGE. 

Viviana Santiago, gerente técnica de gênero da Plan Internacional, concorda que a divisão sexual do trabalho começa na infância. Ela disse ao Nexo que o trabalho doméstico infantil é uma realidade visível, mas que a sociedade de maneira geral não percebe como um problema. “Realizar o trabalho doméstico é entendido como uma atribuição feminina e as meninas são entendidas como mini-mulheres, logo elas estão fazendo aquilo para o que teriam nascido.”

A professora do departamento de Serviço Social da PUC-Rio e chefe do Ciespi (Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância) Irene Rizzini também afirma que há uma divisão sexual no trabalho doméstico, mas acha que o número de horas dedicadas a essas tarefas por meninos parece estar crescendo. “Normalmente esse desequilíbrio seria mais acentuado. É preciso ver quais são as tarefas que estão sendo feitas por garotas e rapazes. Será que eles estão assumindo parte das responsabilidades domésticas?”, disse ao Nexo.


O que é a divisão sexual do trabalho

O termo divisão sexual do trabalho é usado para se referir à divisão de atribuições e tarefas sociais decorrentes de relações sociais de gênero. A principal característica é que homens acabam sendo destinados a atividades produtivas como comércio e indústria, e mulheres se dedicam ao trabalho doméstico e à esfera reprodutiva. Uma das consequências disso é que os homens ocupam cargos e funções mais valorizados socialmente, enquanto mulheres ficam relegadas aos cuidados da casa, menos valorizados. Com os dados sobre trabalho doméstico infantil, a PNAD revela que a divisão começa já na infância.


Quais as consequências do trabalho doméstico para meninas

Se o trabalho doméstico for excessivo, ele pode prejudicar meninos e meninas em seus estudos, também no tempo dedicado ao lazer, que é essencial para o desenvolvimento das crianças, e trazer danos à saúde. Além disso, existe a possibilidade de que atividades domésticas (como cozinhar) coloquem as crianças em risco, o que é proibido. Segundo Vinhaes, atividades pesadas realizadas por longos períodos também estão relacionadas ao trabalho infantil e podem ser erradicadas.

No caso específico das meninas, cuidar da casa também pode servir como um primeiro passo para a execução de tarefas domésticas para terceiros. De acordo com relatório sobre trabalho infantil da Andi, o trabalho doméstico na casa de terceiros é predominantemente feminino e permanece “invisível” na sociedade. Na publicação, a antropóloga Maria Luiza Heilborn, da UFPA, afirma que as meninas aprendem desde cedo que cuidar da casa é coisa de mulher. “No modo como as relações familiares se organizam nesse universo, a socialização das meninas e adolescentes faz com que a capacitação para o emprego doméstico tenha sido realizada desde cedo.”

A socióloga Marlene Vaz destaca, no relatório, que a passagem para o trabalho na casa de terceiros pode ser um desdobramento natural das tarefas realizadas em casa. “A ideia do trabalho doméstico para meninas é muito forte na sociedade, quase que fazendo parte da vida das crianças de famílias pobres, que dimensionam os serviços do lar como parte da formação infantil e sua passagem para lares de terceiros como uma possibilidade de aprendizado e melhoria de oportunidades de ascensão social.”

A nova PNAD mostra que, entre as crianças em trabalho infantil, cerca de 6% trabalham como empregados domésticos na casa de terceiros. De acordo com Vinhaes, a maioria são meninas. Ela afirma que este tipo de trabalho é atividade proibida por lei para crianças e adolescentes.


O que a lei diz sobre trabalho infantil

O trabalho infantil no Brasil é regulamentado por três dispositivos: a Constituição, a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

A legislação permite que adolescentes trabalhem a partir dos 16 anos, com carteira assinada, exceto nos casos de trabalho noturno, perigoso ou insalubre. Também possibilita o trabalho a partir de 14 anos na condição de aprendiz. Crianças de até 13 anos não podem trabalhar. Realizar tarefas domésticas em casa é permitido, mas não pode significar exploração.

O IBGE destacou que a pesquisa não inclui algumas condições que caracterizam trabalho infantil, como condições insalubres e trabalho noturno. Por isso, esse tipo de trabalho infantil não foi contabilizado no total de trabalhadores infantis.


Fonte: Jornal NEXO

O abuso silenciado que há por trás das cesáreas


Ana Farmer tinha cerca de 39 semanas de gravidez quando foi fazer um controle ginecológico na Clínica Cordillera de Santiago, no Chile. Queria saber se era normal que cada vez ficasse mais difícil segurar a urina. Enquanto esperava a obstetra que a havia atendido, outra profissional da equipe a examinou. Tudo estava bem: os dois centímetros de dilatação que surgira há alguns dias não tinham aumentado.

Pouco depois chegou sua obstetra, que havia monitorado sua gestação. “Fez o exame de toque e, de repente, senti que ela rompia a membrana. Comecei a sangrar, sentia muita dor”, relembra com angústia. “Ela disse que o bebê tinha que nascer naquela hora e por cesárea, porque a bolsa tinha estourado”, afirma.

O caso de Ana é um dos milhares de casos de violência obstétrica praticados de forma naturalizada nos hospitais e clínicas de todo o Chile. São relatos de mulheres que viveram cesáreas forçadas, medo, angústia, más práticas e maus-tratos por parte da equipe médica. Sofrem em silêncio, invadidas pela vergonha, pela raiva, pela culpa e pela dor.

A história de Ana tem muito de tudo isso. A jovem, que teve sua primeira e única filha aos 25 anos, é uma defensora ferrenha do parto natural e tanto ela como seu companheiro tinham muito claro como queriam receber a pequena Melissa.

No entanto, todos os seus planos naufragaram depois da violenta intervenção da obstetra. “Começaram a me injetar medicamentos — antibióticos, ocitocina — sem meu consentimento. Tudo o que não queria me injetaram”. Ana não se esquece de que teve de se esconder no banheiro porque não queria seguir para a cirurgia sem que seu companheiro estivesse presente no parto. “O médico não queria esperar que meu namorado chegasse. Me fechei para ganhar tempo, mas me tiraram à força pouco depois e me levaram para a ala médica”, detalha.

“Saiu tudo ao contrário do que eu queria, fui forçada. Foi um pesadelo total que me afeta até hoje”, sentencia a mãe.


“Patologizar” a mulher

O último relatório Informe Anual da Situação de Direitos Humanos no Chile, publicado pelo Instituto de Direitos Humanos (INDH), revela que 50% das mulheres que deram à luz no país em 2015 o fizeram por cesárea. Dessa porcentagem, 70% correspondem a partos em clínicas privadas, enquanto os 30% restantes foram feitos em hospitais públicos. Números que, como adverte o INDH, distam muito da média de 15% a 20% recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), ou dos 25% que se registra na Espanha, que também excede o aconselhado pelo órgão internacional.

O Chile também está longe de outros países latino-americanos como Argentina ou Venezuela, onde a violência obstétrica foi tipificada para reivindicar a proteção dos direitos humanos das mulheres durante sua fase sexual e reprodutiva. No país transandino, por sua vez, há um projeto de lei parado no Congresso no qual esse tipo de agressões e quem as exerce são reconhecidos e punidos.

O doutor René Castro, que durante 18 anos esteve à frente do Programa de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, conhece em primeira mão o olhar do sistema de saúde chileno em relação à mulher. Para ele, esses números “não se justificam”, sobretudo quando os estudos demonstram que a maioria das mulheres prefere partos vaginais e confirma que os ginecologistas “fomos relaxando em nossas boas práticas, transformando-as em um intervencionismo desnecessário”.

Segundo o médico, esse aumento exponencial de intervenções tem muita relação com a forma como se entende o corpo da mulher e seus processos na sociedade chilena. “Se olhamos a linguagem popular e comum, todos os temas relacionados à fisiologia das mulheres têm um nome patológico. Quando menstrua, se diz que a mulher está enferma; quando procura um método contraceptivo, se diz que vai fazer um tratamento; quando quer fazer um aborto, se diz que vai encontrar um remédio; quando chega o parto, dizem que agora vai melhorar”, explica.

Normalizar estas práticas, que muitas vezes são feitas por simples comodidade das equipes médicas, tem um custo. A antropóloga e pioneira em estudos de violência obstétrica Michelle Sadler afirma que as intervenções desnecessárias alteram o sistema imunológico; facilitam o desenvolvimento de mais alergias, asma, obesidade e quadros infecciosos; dificultam o apego e a lactância e provocam mais depressões pós-parto. Além das consequências para mulheres e recém-nascidos, representam elevados custos para os sistemas de saúde.

No entanto, os piores efeitos recaem sobre as mulheres. O doutor Castro alerta que esse tipo de prática tem um impacto emocional. “Tiramos das mães o direito de desfrutar de uma experiência humana, prejudicando os primeiros momentos com seu filho recém-nascido”. O especialista reforça citando a tese da psiquiatra e ativista pelos direitos dos bebês e das mães, Ibone Olza. A especialista espanhola afirma que muitas mulheres que sofreram um parto traumático apresentam os mesmos sintomas das vítimas de estupro por sentirem-se “forçadas” a consentir procedimentos “sem terem sido informadas dos riscos dos mesmos”.

Sua tese também é compartilhada pelo obstetra e codiretor do Observatório de Violência Obstétrica do Chile (OVO), Gonzalo Leiva, que exemplifica com outro caso testemunhado por ele. “Pensemos nessa mulher que foi examinada por um médico, com os dedos em sua vagina, que está doendo ao tato e pede, por favor, que tire a mão. O médico insiste e ela continua pedindo”, explica. “Provavelmente, uma vítima de estupro fará o mesmo: pedir que parem até que se concretize o estupro”, afirma.


Para além da cesárea

Buscar as causas dessa violência que hoje começa a se tornar visível é uma tarefa difícil. Michelle Sadler explica que apesar de as causas serem múltiplas, estão totalmente vinculadas a um contexto de violência de gênero que adquire contornos de violência sexual. “É exercida pelos profissionais da saúde, porque o contexto de misoginia e sexismo assim o permite”, afirma.

Segundo destaca a OMS, as mães adolescentes ou pertencentes a minorias étnicas ou estratos socioeconômicos mais baixos têm mais possibilidades de sofrer maus tratos e falta de respeito na atenção médica. “A vida sexual dessas mulheres é julgada e, de certa forma, com os maus-tratos são culpabilizadas pela forma como viveram sua sexualidade”, afirma Gonzalo Leiva.

A agressão pode implicar desde humilhações até tratamentos infantilizantes ou culpabilizadores em uma simples consulta ginecológica. “São comentários como ‘aqui sou eu que tomo as decisões’, ‘não gostou? Pois agora aguente’ ou ‘abra as pernas e fique quieta que é para o seu bem’”, afirma o obstetra.

María José Padilla se tornou mãe de Simón, seu único filho, aos 20 anos. Foi atendida no Hospital Sótero del Río, o único centro público em um bairro de mais de um milhão de habitantes de Santiago. Sobre sua experiência de dar à luz, lembra: “Me repreendiam porque era vegetariana e me dizia que se não tinha leite era minha culpa. Me culparam dizendo que era eu que não queria amamentá-lo [...] Fizeram a episiotomia sem me perguntar e me proibiram de parir parada, controlando-me para que eu não me sentasse”.

Algo parecido aconteceu com Paz Urrejola, outra jovem que aos 17 anos tornou-se mãe de Santiago. Além de não ter sido consultada sobre a episiotomia, a difamaram dizendo que não sabia empurrar e que se seu filho morresse, ela seria a responsável. “Fizeram em mim a manobra de Kristeller, subindo em minha barriga e me pressionando com força. Fiquei assim por quase 24 horas, sem tomar água, molhando apenas os lábios. Foi violento demais, cruel demais. Um ato desumano para trazer um ser ao mundo”, relembra com pesar a mãe.

Rumo a um novo modelo?

“Muitas mulheres começam a pesquisar depois de seu primeiro parto e se dão conta da oportunidade preciosa que deixaram de viver com um processo mais pleno”, afirma Gonzalo Leiva. O obstetra recomenda criar planos de parto e apresentá-los a hospitais, clínicas e médicos para que sejam as próprias mulheres a começar forçar uma mudança no sistema de saúde chileno, apropriando-se de seu próprio corpo e processo.

Michelle Sadler considera que a transformação passa por substituir o modelo tecnocrático atual por outro mais personalizado, em todos os níveis: desde a educação sexual para as crianças até os conteúdos dos cursos de saúde (Obstetrícia, Enfermagem, Neonatologia, Pediatria), ou as capacitações das equipes.

Nesse sentido, Leiva, que também é professor universitário do curso de Obstetrícia, afirma que são ensinados conteúdos que não correspondem ao que os estudantes observam em sua prática: “Quando vamos aos hospitais, passamos a manhã inteira repetindo aos alunos ‘isso que você está vendo não se faz’”, lamenta.

Uma exceção é a experiência que está sendo feita no Hospital de La Florida. Situado em um dos bairros mais populares da região metropolitana de Santiago, registra 72% de partos naturais, e nos últimos anos conseguiu diminuir em 25% o número de cesáreas.

Definir a posição para dar à luz, respeitar o tipo de parto escolhido pela mãe e fomentar o apego do recém-nascido com seus pais são algumas das práticas que o centro garante aos futuros pais, se não há complicações. Até agora, 30% dos 3.000 partos atendidos por ano no centro são feitos dessa forma.

A aposta de La Florida para que mães e pais escolham como querem parir seus filhos está dando resultado e vários hospitais do país se interessaram em conhecer o projeto. Os avanços na erradicação de más práticas seriam mais rápidos e efetivos se o Colégio de Obstetras e Obtetrizes do Chile se dispusesse a denunciá-las. Mas essa briga dentro da instituição ainda não está ganha.

Que o Chile passe de exceção a regra será impossível se mães, profissionais e autoridades não se decidirem por expor a violência obstétrica e implementar mecanismos efetivos para denunciá-la. Enquanto isso não acontece, em silêncio, continuarão os abusos de poder que se escondem por trás dos fórceps e dos jalecos brancos.


Fonte: Jornal El País (Espanha)

Um dia na vida de… uma pessoa negra


(Conheça série de quadrinhos da SUPER: “Um dia na vida de…”. Conversamos com mulheres, negros, gays e pessoas com deficiência para entender que situações desconfortáveis fazem parte de seu dia a dia – e depois desenhamos os casos para todo mundo entender)

Agradecemos a Ana Julia Gennari, Lívia Martins, Sophia de Mattos e Matheus Moreira, pela coautoria deste post.


Em 13 de maio de 1888, quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, a “Redentora” não acabou com o racismo. Há mais de 20 anos, quando quase 3 milhões de sul-africanos votaram “sim” ao pacote de reformas propostas pelo governo de Frederik De Klerk que colocariam fim ao regime do apartheid, eles não acabaram com o racismo. Em 2003, quando o aniversário de morte de Zumbi dos Palmares virou feriado para o país refletir sobre a condição das pessoas negras, o racismo não acabou. Nem ali, nem lá atrás, nem agora – e o preconceito persiste porque deixamos que persista.

Para colocar fim ao apartheid social não institucionalizado que insistimos em ignorar, é fundamental lembrar que racismo não é sutileza – é crime. E que não é curioso que em um país em que 109,8 milhões (53,6% da população, de acordo com o IBGE) se declarem negras, essas mesmas pessoas sejam minorias em rankings de riqueza, educação e expectativa de vida – é patológico. Melanina só determina as nossas cores. Nada mais.

Os quadrinhos a seguir foram inspirados em situações reais pelas quais pessoas negras passam diariamente.




Um dia na vida de uma pessoa negra

Com quadrinhos de Helô D’Angelo



#SuperAcessível: Quadrinho 1: um velhinho branco está andando na rua. Atrás dele, vem um rapaz negro, de moletom e fones de ouvido. O velhinho percebe a presença do rapaz, com expressão preocupada, pensa: “Ai meu deus… Esse cara vai me assaltar!” Quadrinho 2: o velhinho diz, assustado, para o rapaz: “Leva aqui meu celular e minha carteira, não tenho mais nada!”. O rapaz, irritado, responde: “Eu não quero te assaltar! Só ia perguntar as horas!” Nosso conselho nesse caso: a cor da pele não determina a conduta de ninguém. É muito ofensivo assumir que uma pessoa vai te assaltar só porque ela é negra.




#SuperAcessível: Quadro 1: um rapaz negro, de cabelo raspado e camisa, está conversando com um senhor branco. O senhor dá uma cutucada no rapaz com o cotovelo e diz: “Você é um negro bonito. Seu nariz não é tão largo, você nem é tão escuro e seu cabelo até que é bom…” Quadro 2: foco no rosto do rapaz: ele está dando um “facepalm” e pensando “Então eu só sou bonito porque pareço branco?!” Nosso conselho nesse caso: se você diz que uma pessoa é bonita “apesar” dessas características, está dizendo que só existe um padrão de beleza: o branco. Isso não é elogio – é racismo.




#SuperAcessível: Quadro 1: uma mulher negra está sentada no banco de um bar, sendo agarrada por um cara branco, sentado ao lado dela. Ela está obviamente incomodada com a investida, e diz: “Já falei que não tô afim de ficar com você!”. O cara responde: “Para com isso! Eu sei que mulata é sempre assanhada…” Quadro 2: Foco no rosto da mulher. Ela está muito brava. Ela grita: “Além de machista é racista! Sai daqui!” Nosso conselho nesse caso: A cor da pele não justifica abuso sexual – nada justifica. Achar que uma mulher está ali para servir é ignorar toda a vontade dela e transformá-la em um objeto.




#SuperAcessível: Quadro 1: uma senhora negra está andando no shopping. Uma outra mulher, branca e com ar de madame, chega perto e diz: “Escuta aqui, o banheiro desse shopping tá uma porcaria! Melhor você ir limpar agora!” Quadro 2: a mulher muda a expressão: ela está com muita raiva. Ela fala: Eu sou advogada, não faxineira”. A madame fica constrangida. Nosso conselho nesse caso: assumir que alguém está ali para servir é voltar direto para a época da escravidão. Que tal não ter esse preconceito simplesmente porque a outra pessoa é negra?




#SuperAcessível: Quadro 1: um rapaz branco e loiro, de barba, dreads e roupa rasgada, está passando na rua. Atrás dele, duas mulheres brancas conversam. Uma das mulheres, que tem cabelos escuros e está usando saia, diz: “Nossa! Que gato”. A outra, de cabelos mais claros e calça comprida, responde, sorrindo: “Bem estilo hippie, né?” Quadro 2: um rapaz negro passa na frente das mesmas mulheres brancas. O cara está com o visual idêntico ao loiro do quadro anterior: dreads, roupa rasgada e barba comprida. A moça de cabelos escuros faz uma cara de horror e diz: “Que cara mais sujo”. A outra, de cabelos claros, responde (com cara de nojo): “Acho que ele está bêbado! Não chega perto”. Nosso conselho nesse caso: Admirar signos da cultura negra apenas em pessoas brancas é sinal de racismo. Afinal, fazer isso é se esquecer que o uso de dreads – assim como o de turbantes e tranças – faz parte da cultura africana e tem significados importantes para pessoas negras. A apropriação cultural destes signos ser vista como algo estiloso, enquanto seu uso por pessoas negras ser visto com preconceito é, além de racista, hipócrita.




#SuperAcessível: Quadro 1: um rapaz negro, de terno e gravata, chega na recepção de um escritório. A recepcionista é branca. O rapaz diz: “Oi, eu vim para a entrevista de emprego”. A recepcionista interrompe: “Ah, é pra vaga de segurança, né? Pode sentar ali” Quadro 2: O rapaz fica muito bravo e responde: “não, é pra vaga de analista de sistemas”. A recepcionista fica com vergonha. Nosso conselho nesse caso: Profissões não deveriam ter cara ou cor. Pensar que uma pessoa negra não é qualificada profissionalmente é sinal de racismo. É pensar que negros não são tão capazes quanto pessoas brancas – o que não é verdade.




#SuperAcessível: Quadro 1: uma moça negra está saindo de uma loja ao mesmo tempo que uma branca, as duas com sacolas. O alarme apita. As duas ficam meio constrangidas. Um segurança branco se aproxima da moça negra e diz: “Moça, vou precisar ver sua bolsa”. Quadro 2: A moça negra, com raiva, mostra a nota fiscal para o segurança. Ao fundo, a moça branca está indo embora. A moça negra pensa: “Não vi ele desconfiando da branca!” Nosso conselho nesse caso: desconfiar sempre que uma pessoa negra vá cometer algum crime só por causa da cor da pele é corroborar para o estereótipo racista que relaciona negros a criminosos. E isso inclui perseguir pessoas negras em corredores de lojas, pedir para revistar apenas pessoas negras e por aí vai.




#SuperAcessível: Quadro 1: uma moça negra, com um black power, está na fila do supermercado. Ela percebe que uma senhora está mexendo no cabelo dela. A senhora diz: “Seu cabelo é tão exótico! Como você lava isso?!” Quadro 2: a moça fica irritada e pensa: “Quem deixou ela mexer em mim?” Nosso conselho nesse caso: O corpo de outras pessoas deve ser respeitado – e isso inclui o cabelo. Tocar nos outros sem permissão é dar status de objeto àquela pessoa. E ninguém é objeto de ninguém, né?


Fonte: Revista SuperInteressante

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Artigo - Somos uma nação de viciados por pornografia. Por que somos surpreendidos pelos abusadores em nosso meio?



Por: Matt Walsh
Tradução: Yatahaze


Ao entrar no terceiro mês da explosão de denúncias de abusos, pode ser hora de considerar por que temos tantos pervertidos, de onde eles provêm, e que tipo de coisas podem contribuir para a sua perversidade. Para esse fim, posso apontar para o fato de que gastamos quatro bilhões de horas por ano assistindo pornografia?

Desculpa. Deixe-me corrigir-me. Acabei de subestimar o problema. Nós dedicamos muito mais de quatro bilhões e meio de horas para assistir pornografia em um site de pornografia em 2016. Apenas no Porn Hub, a humanidade passou duas vezes mais tempo vendo pornografia em um ano,do já que passou no planeta Terra. O site tinha mais de 90 bilhões de visualizações de vídeos e 44 mil visitantes a cada minuto todos os dias. Tudo se resume a mais de 500 mil anos de pornografia consumida no período de 12 meses. Desde 2015 , os seres humanos passaram um milhão de anos assistindo pornografia.

Um milhão de anos.

1. Milhão. Anos.

Estou dizendo isso não só porque é um pouco interessante por ser uma curiosidade que você pode querer lembrar no caso de você ser sempre um concorrente no mais estranho episódio de Jeopardy de todos os tempos, mas também porque esses números são sérios. Mais do que sério: surpreendente, incompreensível, impensável, apocalíptico. Mais ainda para os americanos, porque assistimos mais pornografia do que qualquer outra pessoa na Terra (pelo menos ainda somos o número um em algo).

Pornografia é, obviamente, o passatempo favorito da América. De acordo com pesquisas, quase 80% dos homens americanos entre as idades de 18 e 30 anos admitem assistir pornografia regularmente. Quase 70% dos homens entre 31 e 49 admitiram assistir. A metade dos homens de 50 anos para a terceira idade também confessa o consumo regular de pornografia. 30% dos homens mais jovens dizem assistir pornografia todos os dias. A audiência pornográfica não é tão comum entre as mulheres, mas é muito mais comum hoje do que há 10 anos. Lembre-se, também, é exatamente o que as pessoas vão admitir fazer.

Não é de admirar que a indústria pornográfica valha US $ 97 bilhões , que é apenas um pouco maior (cerca de 100 vezes maior) do que os US $ 750 milhões que valeram 20 anos atrás . Hoje, a pornografia aumenta mais em um ano do que Hollywood. Também traz mais dinheiro do que a NFL, a NBA e a MLB combinadas. E isso é apenas “a indústria da pornografia” que estamos falando: significando apenas o respeitável e oficial tipo de ameaça, protagonizando pessoas que têm “estrela pornô” em seu contracheque. Se quantificarmos a pornografia amadora e descobrir o que ela “vale” em dólares, quem sabe o que seria o número. 200 bilhões? Eu não faço ideia.

A ciência é bastante clara de que todo esse consumo de pornografia é ruim para o cérebro — pode até encolher ele, de acordo com alguns estudos. É ainda pior para o seu casamento, com a chance de se divorciar se você usar pornografia. Existe também um vínculo muito claro e estabelecido entre predadores sexuais e pornografia. Não é que assistir pornografia automaticamente o transformará em um predador, mas não é coincidência que os estupradores e os pedófilos comecem sempre com a pornografia. Você teria dificuldade em encontrar um criminoso sexual em 2017, que não começou por explorar seu “fetiche” na liberdade e no anonimato da internet. Isto é particularmente importante quando se considera alguns dos temas de pesquisa pornô mais populares: ou seja, “incesto” e “adolescentes”.

Você pode ler os estudos e as estatísticas que forneci nos links acima. Mas você não precisa estudar a questão amplamente para descobrir se quatro bilhões e meio de pornografia é saudável para seres humanos individualmente e para a sociedade humana como um todo. Também não leva um detetive ou um cientista para ver como um homem que gasta horas do seu dia se entregando a fantasias sexuais perversas pode um dia trazer essas fantasias para o “mundo real”. Se você gosta da versão simulada de algo, significa que, obviamente, há algo sobre a coisa em si que você gosta. Ver pornografia de estupro não faz de você um estuprador, mas faz você ser o tipo de pessoa que encontra algo tentador no estupro. Ver pornô onde a mulher é deliberadamente feita para parecer uma garota da escola não faz de você um pedófilo, mas faz você o tipo de pessoa que fica excitado pela pedofilia.

Mas mesmo que a maioria das pessoas assista a pornografia regular, consensual, adulto-adulto, o que elas gostam no sexo, o que elas veem na tela? Bem, eles gostam de como isso lhes dá prazer. É isso aí. O espectador pornô não se preocupa com nenhum outro aspecto do sexo. Pornografia rompe completamente do ato sexual qualquer noção de amor ou dignidade. O sexo é usado como um produto, e a humanidade da pessoa do outro lado da câmera não são levados em consideração. Elas são apenas objetos a serem consumidos. A experiência de pornografia é um design vazio, oca, sem vida e desumanizante.

É isso que nos alimenta. Quatro e meio bilhões de horas disto. Uma vida inteira disso. A criança média começa a assistir a pornografia em torno de 10 ou 11 anos (numa perspectiva otimista, penso eu). Ela é alimentada com uma dieta constante de amortização de almas, pornografia hardcore destruindo empatia ao longo de seus anos formativos. Muito antes de ter um momento físico íntimo, real e íntimo com uma mulher, ele já viu mulheres de todos os ângulos e posições imagináveis. Ele está entediado com a figura feminina nua sem ter testemunhado pessoalmente. Ele nunca teve a chance de uma relação sexual saudável porque ele esteve em estado de saúde, simulado desde a puberdade.

Muitos jovens estão buscando prescrições para Viagra por causa de uma praga misteriosa de início precoce de “disfunção erétil”. Não é um mistério. Eles não conseguem ficar entusiasmados com o sexo normal, com pessoas, porque estão entorpecidos e dessensibilizados de toda a pornografia. E o problema piora ao longo do tempo, pois eles procuram pornografia mais estranha e mais esquisita para se excitar novamente. Você não precisa ser um gênio para ver como, através deste processo, a pornografia pode levar um homem decente e transformá-lo em um predador de sexo. Isso acontece o tempo todo.

Não estou criando desculpas para ninguém. E eu percebo que muitos dos predadores sexuais atualmente nas notícias não cresceram assistindo pornografia da internet de qualquer maneira. O que estou dizendo é que essa onda atual não é nada em comparação com o que está no horizonte. O primeiro passo para se tornar um predador sexual é ver o sexo como um exercício totalmente egoísta. O próximo é negar a humanidade e a dignidade da outra pessoa envolvida. O estágio final é desenvolver um fetiche para o estranho e o depravado. Nossa cultura de pornografia leva as pessoas através dos três estágios rapidamente e em uma idade muito jovem. Nossa sociedade é agora como uma correia transportadora onde os degenerados narcisistas estão vindo aos montes a cada dia.

Você acha que está mal agora. Cuidado, pode piorar!


Fonte: Portal Medium 

Artigo - Por que não existe espaço para galãs negros?



Por: Helder Maldonado


Não é necessário uma pesquisa e dados que comprovem que nas novelas brasileiras, em Hollywood ou na música pop o papel de galã sempre esteve reservado para um homem ou uma mulher branca. Se for loiro e de olhos claros, maior a chance de garantir esse papel.

E não precisa ser exatamente bonito para isso. Uma olhada em fotos antigas de gente como Nick Carter, Vinny, Justin Timberlake ou Guilherme Fontes prova o que racistas insistem em não enxergar: que existe sim o privilégio branco.

Apenas isso explica de maneira resumida como a indústria cultural vendeu desde sempre o estereótipo eurocêntrico caucasiano como ideal de beleza a ser atingido.

No cinema e na TV, o papel do negro foi quase sempre o de personagem servil ou marginalizado. Dessa maneira, a pele escura quase nunca está inserida em uma posição de destaque e protagonismo.

Marcello Melo Jr., Rafael Zulu e Ícaro Silva jamais serão escalados para os principais papéis das novelas ou peças publicitárias por aqui.

Mesmo que eles provem ser melhores profissionais e mais bonitos que atores brancos como os irmãos Simas, Klebber Toledo ou os irmãs Vitti, não há espaço para que eles sejam modelo de beleza nas telas brasileiras.



O que, no entanto, beira o absurdo. Com 54% dos habitantes se autodeclarando negros, a TV do Brasil nem parece que é a de um país da América do Sul. Há tantos brancos na apresentação de programas, bancadas de telejornais, filmes e novelas, que as emissoras parecem que estão transmitindo diretamente de Amsterdã. Se bobear, até na Holanda há mais negros em posição de destaque na mídia do que aqui.

Na música, esse problema é mais sutil. Afinal, não há música pop sem música negra, seja aqui ou nos Estados Unidos. Mas no que diz respeito a ídolos teens que são modelos de beleza na indústria fonográfica, a coisa segue o mesmo padrão.

Uma olhada nas capas da Capricho e fica claro que, mesmo com todo o sucesso que tiveram entre os adolescentes, artistas como Alexandre Pires, Usher, Nelly, Drake e Criolo jamais seriam escolhidos como os galãs da vez no lugar de gente de diagramação questionável como o Felipe Dylon, Luan Santana, Justin Bieber ou já citado Nick Carter.

O dia da Consciência Negra serve, entre tantas outras causas mais urgentes, para questionar também o padrão de beleza propagado pela indústria cultural, que tanto normatiza o branco como belo.

As coisas mudaram? Aos poucos, sim. Mas há muito a ser feito nesse sentido, já que a proporção de negros na TV ainda é desproporcional se comparado à quantidade de negros na sociedade como um todo.

É preciso reconhecer que até agora fomos sim racistas e que fingimos viver em uma sociedade branca que nada tem a ver com que o presenciamos nas ruas e com a nossa cultura. A questão da representatividade importa, inclusive na diminuição do racismo e na aceitação. Não é possível achar natural que em mais de meio século de TV nacional, não exista quase nenhum protagonista negro.


Fonte: Site Galãs Feios

Entrevista - “Classe C não usa Facebook para mobilização política, mas a rede motiva o jovem pobre a ler e escrever”


O antropólogo Juliano Spyer mergulhou no cotidiano de um povoado no norte da Bahia por 15 meses. Instalou-se, criou laços, adicionou e foi adicionado em centenas de contatos no Facebook e em seus grupos de WhatsApp. Passou a compartilhar os dramas sociais, enredos amorosos e memes da paisagem real e virtual, tanto pública quanto privada, da comunidade de cerca de 15.000 habitantes cujo nome ele preferiu preservar.

O resultado da incursão, seu doutorado na University College London (UCL), no Reino Unido, se transformou no recém-lançado Social Media in Emergent Brazil, um dos estudos qualitativos mais completos disponíveis (o download é livre e uma versão em português deve sair em 2018) de como as classes populares no Brasil usam e incorporam a Internet e as redes sociais. A obra faz parte de uma série da universidade britânica que compara o panorama em nove países. Na entrevista abaixo, Spyer aponta um abismo que separa o tipo de uso político das redes nas classes mais abastadas e nos estratos mais pobres do país e fala do impacto dos evangélicos nessas comunidades. O grupo impressionou tanto o autor que ele já prepara novo livro sobre o tema que, por ora, leva o título Crentes, uma revolução popular brasileira.


Pergunta. Seu livro conta que não é comum na comunidade que você estudou postar opiniões políticas, mas mostra, por exemplo, o caso de uma evangélica que publicou as fotos de seu casamento no Facebook para marcar a vitória ante o pastor local que se negou a casá-la porque ela já morava com o namorado. As redes são armas políticas para as classes populares, mas não como a gente pensa?

Resposta.
Exato. A rede pode ser e é usada no jogo local de poderes, como ferramenta para mostrar conquistas ou atacar rivais, mas não para discutir visões sobre a política como fazem os setores mais escolarizados. A classe C não usa o Facebook para mobilização política. Para os meus vizinhos no povoado a política é palpável. Eles querem saber se o posto de saúde vai ficar aberto 24 horas, se a rua será asfaltada, se a escola que fechou porque o Governo suspendeu o pagamento dos funcionários terceirizados da limpeza vai reabrir. Mães estão sendo incorporadas ao mundo do trabalho formal, o que confere grandes vantagens para a família em termos de benefícios e estabilidade, mas traz novas dores de cabeça. Essas mães não estarão na vizinhança para ficar do olho nos filhos e por isso elas querem saber quando o Governo oferecerá atividades que deem alternativa para que a filha ou o filho não fiquem pela rua desacompanhados – por exemplo, atividades físicas ou aulas de línguas. Eles não precisam da Internet para saber desses problemas porque são dificuldades diárias da vida no brasileiro das camadas populares. E eles também não precisam das mídias sociais para se articularem, porque essa articulação já existe nas redes tradicionais de ajuda mútua, que se baseiam na proximidade física entre as pessoas.


P. Nem durante a campanha esse tipo de post político aparece?

R.
Os moradores não discutem política por entenderem que os políticos os veem como cidadãos de segunda categoria. O candidato aparece nas campanhas prometendo mundos e, depois que é eleito, desaparece. Veja um caso relativamente comum de um tema político que motivou protesto no povoado: um grupo de moradores se organizou para fretar ônibus e fazer manifestação na frente da prefeitura contra a presença de caminhões de carga transitando irregularmente no povoado. A passagem desses caminhões quebra o asfalto, levanta poeira e provoca problemas respiratórios. Desde que eu saí de lá, há três anos, a situação piorou porque os caminhões agora passam de madrugada, poluindo o ar e também, por causa do barulho intenso, atrapalhando o sono das pessoas que acordam de madrugada para trabalhar.


P. Você estava em campo em junho de 2013 e na campanha de 2014. Como os grandes protestos foram acompanhados de lá?

R.
Eu acompanhei os grandes protestos de junho de 2013 simultaneamente de dois pontos de vista. Enquanto os meus amigos intelectuais de classe média de São Paulo dedicavam muitas horas discutindo política e repassando informação sobre as mobilizações, no povoado esse tema chegou apenas via TV, e ela praticamente não gerou conversas cara a cara nas ruas nem pela Internet. Meus vizinhos do povoado assistiram às notícias dos protestos que aconteciam a 100 quilômetros dali, em Salvador, da mesma forma como assistiram os protestos da Primavera Árabe ou do Occupy Wall Street nos Estados Unidos. Como eu expliquei anteriormente, política governamental é um tema que frequentemente os lembra de sua condição de cidadãos de segunda categoria, porque, segundo eles explicam, políticos aparecem nas campanhas depois somem. Há pessoas que se manifestam online e offline, nesses períodos de campanha, a favor de um ou outro candidato, mas pelo que eu vi esse tipo de apoio muitas vezes tem a ver com vínculos dessas pessoas com grupos políticos específicos. Quem apoia e faz campanha pelo candidato – vereador, deputado estadual, prefeito – geralmente espera recompensa, principalmente sendo contratado para um cargo no serviço público. O que circulou muito em 2014, principalmente via WhatsApp, foi conteúdo ridicularizando políticos e concordando com essa ideia pessimista sobre o político ser essencialmente um interesseiro. Essa raiva contra a classe política lembra o clima aqui do Reino Unido, que levou à vitória do Brexit, e nos Estados Unidos, que elegeu Trump, e que se manifesta hoje, nas camadas populares brasileiras, pelo apoio a Bolsonaro. Em outras ocasiões essa revolta apareceu no voto pelo Tiririca (“pior que tá não fica”), mas a crise econômica desses últimos anos e o consequente o empobrecimento desses setores parece que azedaram o humor desse grupo, que quer ver os outros grupos da sociedade saírem de sua zona de conforto.


P. Você presenciou proselitismo político ligado à religião?

R.
Eu presenciei principalmente o apoio a uma agenda mais conservadora, e associada aos temas sobre sexualidade, e críticas principalmente ao PT, mas essas eram opiniões expressas por indivíduos, e não visões oficiais de determinadas igrejas.


P. O impacto das comunidades evangélicas no povoado que você estudou e a tensão com outros grupos fica clara no seu livro. Sempre se fala que há um grande desconhecimento dos grupos evangélicos, que costumam aparecer como monolíticos. Você concorda?

R.
Concordo com a ideia de que há um grande desconhecimento por parte das camadas médias e as elites brasileiras sobre os evangélicos. Esse termo é compartilhado por vários grupos cristãos muito diferentes. Nos Estados Unidos, que é um país predominantemente protestante, as pessoas sabem, por exemplo, que protestantes históricos (como batistas ou metodistas) são muito diferentes de pentecostais em termos socioeconômicos. Uma parte do problema aqui parece ser o preconceito de classe que se expressa pelo idioma da religião. Conforme a antropóloga Clara Mafra explicou, o protestantismo atraiu as camadas populares desde o início no século XIX porque na igreja protestante as pessoas se tratam como iguais, enquanto na Igreja Católica o pobre tradicionalmente cedia lugar no banco para as famílias importantes e tinha que assistir a missa de pé. O problema, então, não é a crítica que se faz a posturas conservadoras dos chamados “evangélicos”, mas entender que essa crítica perde a força ao revelar um desentendimento do tema, porque há grande variedade de pontos de vista nesse grupo. Essa postura das camadas escolarizadas sobre os evangélicos é parecida com o que vejo na Europa e nos Estados Unidos em relação aos muçulmanos: fala-se frequentemente deles como se todos fossem iguais quando isso não é verdade.


P. O que mais chamou atenção no uso das redes sociais pelos usuários evangélicos?

R.
Como eles invertem uma certa desconfiança que as camadas populares demonstram em relação à utilidade da educação. Em famílias que não são evangélicas, os pais temem que a escola fará o filho ficar preguiçoso e desrespeitoso, porque ele não aprende a trabalhar duro desde cedo e também porque esse filho acaba passando muito tempo entre seus pares. Os pais evangélicos se convertem à religião e também à ideia de que a educação é um componente importante para a transformação da vida de sua família. Algumas igrejas do povoado ofereciam cursos de alfabetização para adultos que se sentem envergonhados nos cultos por não poderem ler a Bíblia. Mas a principal consequência dessa transformação é como esses pais passam se orgulhar de dizer que seus filhos estão estudando. E por causa desse apreço pela educação, a Internet passa a se tornar, para eles, uma ferramenta que complementa a educação formal.


P. Os adolescentes no seu livro aparecem angustiados com o "trabalho" de estar nas redes sociais. Não é preocupante essa captura?

R.
Falo do adolescente vendo sua presença na rede social como um trabalho porque – como acontece também em grupos adolescentes das camadas médias e altas – há uma associação entre popularidade off-line e número de amigos ou seguidores online. Mas não acho que o problema que você aponta afeta especialmente adolescentes. Na verdade, talvez os adolescentes sejam os menos afetados porque– no caso dos do povoado – muitos têm essa ambição de ampliar suas fronteiras buscando contato com pessoas fora de seus círculos diretos. É comum a crítica de que o uso da Internet é ruim porque o jovem passa a escrever usando gírias e sem se importar em obedecer às regras gramaticais, mas o que vi é que eles aprendem a escrever com menos erros por pânico de passar vergonha na frente de seus pares nas redes. O uso da Internet é a primeira motivação real para eles aprenderem a ler e a escrever. Um dos motivos explícitos do encantamento que eles têm pelas redes sociais é que os pais deles têm muito menos educação formal e conhecimento tecnológico e, consequentemente, não conseguem acompanhar o que acontece ali, então os jovens tem mais liberdade de comunicação. É ali, por exemplo, que os evangélicos universitários se sentem seguros para manter vínculos com pessoas de outras religiões e visões de mundo, inclusive com seguidores das religiões de matriz africana. Eles fazem isso para combater a visão estereotipada que existe sobre evangélicos, e mostrar a seus colegas como eles não são alienados ou bitolados no que a Bíblia diz. O jovem, portanto, está mais aberto para circular por grupos diferentes enquanto os adultos estão mais circunscritos a determinados círculos sociais.


P. Quando aconteceu o caso do estupro coletivo no Rio divulgado nas redes muitos diziam que o material do vídeo era do tipo que circula muito mais do que sabemos. Seria uma falha na espécie de política de privacidade dos usuários que você detalha no livro: conteúdos envolvendo pessoas próximas são compartilhados com muito mais cuidado, usando até bluetooh. Na sua etnografia, você recebeu vídeos de locais que, no limite, eram crimes?

R.
Esse é um aspecto da pesquisa de campo que discuto em um dos capítulos, mas que não pude aprofundar porque o que o conteúdo desses vídeos dificilmente pode ser mostrado fora desses contextos das trocas diretas, porque eles são moralmente muito chocantes e também pelos problemas legais que a exibição disso traria. Esse tipo de vídeo que você menciona é de um tipo comum, e há outras categorias além de temas relacionados a sexualidade como, por exemplo, de violência explícita. Conforme outros estudos sobre o Brasil também mencionam, esse aspecto da nossa cultura popular ecoa valores do mundo popular da Europa medieval estudados por Bakhtin, um teórico russo. Há muito conteúdo desse tipo que circula informalmente, mas ele reflete a rotina da vida envolta em muita informalidade, em que a violência em geral e a violência doméstica são parte do dia a dia. Não acho que a Internet amplie o tolerável.


P. Por quê?

R.
O Brasil tem uma robusta produção acadêmica sobre as classes populares, mas esse conhecimento ainda está restrito a esses círculos de produção de conhecimento. Fora deles, as camadas escolarizadas continuam muito distantes do mundo popular. Como escreveu a antropóloga Claudia Fonseca, a nossa sociedade é tão segregada que o contato que temos com grupos populares geralmente se resume às conversas com a empregada e a situações de assalto. Esses vídeos chocam em parte porque eles não fazem parte da nossa realidade. Mas não defendo que isso justifique ou explique práticas como a do vídeo que você mencionou.


P. Você fez etnografia presencial clássica e por meio das plataformas e contrastou comportamentos para chegar a um retrato refinado. Não deveria ser um assunto de debate público que um monopólio privado, o próprio Facebook, tem parte dessas informações e muitas outras sobre esse mundo de gente?

R.
Como você diz, o Facebook, que também é dono do WhatsApp, não apenas detém informações sobre pessoas como usa essa informação de maneira às vezes complicada. Vou usar um exemplo pessoal: por eu morar aqui no Reino Unido e ser leitor da revista The Economist, o algoritmo do Facebook “entendeu” que eu teria uma perspectiva conservadora da política. O Facebook hoje se permite “curtir” um conteúdo em nome do usuário, como a BBC já mostrou. Por causa disso, uma amiga me mandou uma mensagem no contexto dos debates sobre o Brexit perguntando se era verdade mesmo que eu tinha “curtido” o perfil da atual primeira ministra. Mas eu não fiz isso nem tinha sido notificado da curtida em meu nome que aparecia na linha do tempo dos meus contatos. A partir dessa experiência, fico pensando como isso será usado para influenciar as eleições no Brasil. Se essa maneira de manipular opiniões acontece em países ricos, onde a opinião pública tem mais força, no Brasil esse tipo de uso da plataforma deverá ser ainda mais explorado. Uma marqueteira da campanha Trump recentemente revelou à BBC que, no QG da campanha havia funcionários do Google, do YouTube, do Twitter e do Facebook trabalhando para aumentar a eficiência do uso dessas ferramentas. Não vejo por que seria diferente no caso brasileiro, tendo como consequência um possível acirramento da polarização e dando vantagem a quem tem maior orçamento.


P. O livro conclui dizendo que as redes ajudam o conservadorismo - e não só no Brasil. Você pode explicar? Por que isso acontece?

R.
A narrativa “clássica” sobre a Internet é que ela expande os potenciais do indivíduo, e isso também acontece no povoado em que eu morei. Dei os exemplos dos evangélicos usando as mídias sociais como complemento à escola e dos jovens que via comunicação online têm maior autonomia. Ao mesmo tempo, a Internet também fortalece o conservadorismo que se manifesta pelo controle moral das pessoas, que via redes sociais ganharam novos espaços para se vigiarem e poderem atacar as reputações umas das outras. As camadas populares dependem muito de redes de ajuda mútua para viver e sobreviver à presença limitada de serviços governamentais. Mas essas redes de ajuda mútua existem junto com a prática das pessoas monitorarem e controlarem a vida umas das outras. Nesse sentido, a Internet fortalece práticas que resultam de valores tradicionais.


Série mostra semelhanças entre Brasil, Índia e China

Por que nós postamos? A pergunta norteou a série de livros Why we post do Departamento de Antropologia da University College London (UCL), no Reino Unido. Coordenada pelo antropólogo Daniel Miller, o esforço tem o ambicioso objetivo de mapear como as redes sociais estão mudando - e são mudadas - nos mais diferentes contextos em nove países, incluindo Brasil, China, Índia e Turquia.

"É interessante ver como há semelhanças entre grupos culturalmente tão distantes como brasileiros, indianos e chineses, e há distancia entre brasileiros pobres e ricos quando o tema são o uso das redes sociais", diz Juliano Spyer, responsável pelo livro brasileiro do conjunto." Ele diz que, enquanto as camadas médias e as elites de alguns dos países entendem que as mídias sociais distraem seus filhos das obrigações escolares, nos setores populares de Brasil, na Índia ou na China, "ver o filho na lan house , de certo modo, representa um domínio de novas tecnologias que, para os pais, tem mais possibilidades de se converter em trabalho e dinheiro do que ir à escola."

Todos os livros da série são gratuitos, incluindo o que faz a comparação entre os países.



Fonte: Jornal El País (Espanha)

Twitter Facebook Favoritos

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Facebook Themes