domingo, 18 de junho de 2017

Parada do Orgulho LGBT lota Avenida Paulista e defende Estado laico

Foto: Ravena Rosa (Agência Brasil)

Quase 20 trios elétricos animam o público da 21ª Parada do Orgulho LGBT, na Avenida Paulista



A Avenida Paulista foi tomada na tarde deste domingo (18) por milhares de pessoas que acompanham a 21ª Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Transgêneros). Com o tema “Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei. Todas e todos por um Estado laico” , o evento começou por volta das 13h sob o comando da drag queenTchaka, que do alto do primeiro trio elétrico convidou o público a fazer a contagem regressiva para o início da manifestação.

Em seguida a presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, Claudia Regina dos Santos Garcia, falou sobre a importância do tema da parada deste ano. "Todos vocês têm direito de voltar para casa sem enfrentar a homofobia, sem enfrentar desrespeito e nem agressão. Nada pode afetar o nosso direito de amar, o nosso direito de ser quem somos", disse.

Vestida de branco, a apresentadora e modelo Fernanda Lima, madrinha da parada este ano, disse estar feliz por representar a comunidade LGBT. "O Estado é laico. A religião é uma opção individual de cada cidadão e não tem nada a ver com o direito civil, com o direito da sociedade como um todo. Vamos ser livres, sejam o que quiserem, desde que estejam dentro da lei", disse, entusiasmada.

As cantoras Daniela Mercury, Anitta, Lorena Simpson e Naiara Azevedo estão entre as principais atrações do evento este ano. A parada tem 19 trios elétricos patrocinados por instituições e empresas que apoiam o movimento LGBT.

O percurso, de aproximadamente 3,5 km, segue da Avenida Paulista em direção à Rua da Consolação. O show de encerramento será no Vale do Anhangabaú, com a cantora Tâmara Angel.

Segundo os organizadores, 3 milhões de pessoas participam do evento. Até às 15h, a Polícia Militar não havia divulgado o número de participantes. A PM também informou que ainda não registrou nenhuma ocorrência.


Participação

Jovens, crianças, idosos e famílias que apoiam a causa da diversidade vieram à festa. A jornalista Luiza Barros levou a filha de 2 anos para ver a parada. "É a primeira vez que trago ela e acho importante esse encontro e o entendimento da diversidade e do respeito com as escolhas. E é claro, a alegria e diversão que tem, o clima de festa", disse.

Amigo de Luisa, o professor Roberto Marques veio passar o feriado em São Paulo e não sabia da parada, mas a filha adolescente o convenceu a ficar para a festa. Para ele, a parada é importante para dar um "choque" nas pessoas. "É importante a visibilidade", disse.

Morador de Niterói (RJ), Marco Antônio de Pereira Azevedo Júnior está na parada pela terceira vez. "O tema deste ano é maravilhoso. É um tema que se dirige a uma bancada religiosa que é reacionária, por isso a importância de se falar disso".

Acompanhada do marido, a farmacêutica Elissa Beneguine esteve hoje pela primeira na parada. Ela disse que foi ao evento porque apoia a comunidade LGBT. "Sou uma pessoa que trabalha contra todo o tipo de discriminação, é preciso liberdade e respeito às diferenças", defendeu.

Além da causa da diversidade, a parada também aquece a economia paulistana. Segundo levantamento feito pelo Observatório do Turismo durante a edição de 2016, o gasto médio individual na cidade dos entrevistados foi de R$ 1.502,91, considerando despesas com hospedagem, alimentação, transporte e lazer. Já os paulistanos gastaram, em média, R$ 73,82 na Avenida Paulista durante a parada.


Fonte: Portal Agência Brasil

Entrevista - Perda de confiança em política cria vazio preenchido por consumismo, diz filósofo francês

Foto: Greg Salibian (Fronteiras do Pensamento)
Gilles veio ao Brasil participar do evento Fronteiras do Pensamento


Tido como um dos mais importantes pensadores do mundo atual, o francês Gilles Lipovetsky defende que a falta de confiança na política é uma das principais características da nossa época e que o consumo se transformou em uma espécie de engajamento.

"Há algo de estranho nessa sociedade em que tudo deve ser atrativo e a política não é mais atrativa: ela é repulsiva", disse ele em entrevista à BBC Brasil.

Autor de best-sellers como Era do Vazio e O Império do Efêmero, em que reflete sobre a estrutura da sociedade em que vivemos, o professor da Universidade de Grenoble e teórico da "hipermodernidade" afirma que as pessoas se orientam hoje pelo consumo. Lipovetsky concentra seus estudos no período a partir da segunda metade do século 20.

"A direita, a esquerda, a igreja - são conceitos mais desfocados. E o sentimento geral das pessoas é de estarem um pouco desnorteadas. Mas justamente através do consumo as pessoas readquirem um certo poder porque disso elas entendem".

Elke esteve recentemente em Porto Alegre para participar do seminário Fronteiras do Pensamento. Veja abaixo, trechos da entrevista dada à BBC Brasil.

BBC Brasil - Sua obra fala muito do consumismo, das relações com o universo das marcas, que buscam nos seduzir, mas também nos representar. O que representa o consumo hoje para as pessoas?

Gilles Lipovetsky-
Há as duas coisas. Há quem a gente chama de 'fashion addicts' (viciados em moda) que compram porque estão fascinados por esta ou aquela marca. Eles vão às lojas da Apple com se fossem templos, igrejas. São fanáticos. Mas há outra face também: há hoje quem, através do consumo, exerce alguma forma de engajamento pessoal. Por exemplo, "não compro produtos desta empresa porque não gosto da visão de mundo deles".

Acho que o consumo hoje em dia tomou um significado diferente do passado. As pessoas hoje estão perdidas no universo da globalização porque as referências tradicionais estão mortas: a direita, a esquerda, a igreja - são conceitos mais desfocados. E o sentimento geral das pessoas é de estarem um pouco desnorteadas. Mas justamente através do consumo as pessoas readquirem um certo poder porque disso elas entendem. Então, eu acho que se o consumo se tornou algo tão importante é porque de uma maneira elas exercem uma autonomia.


BBC Brasil - Seu livro mais recente lançado no Brasil fala sobre a leveza (Da Leveza - Rumo a uma Civilização sem Peso). O mundo em geral, no entanto, anda pesado - da política à economia. A leveza hoje seria mais uma evasão, utopia ou ainda é algo possível?

Lipovetsky -
Desde o começo dos tempos, os momentos de leveza são de fato momentos de fuga, uma maneira de se desconectar. Então, por muito tempo, os homens descreviam leveza como um sonho, uma utopia.

Mas no livro que escrevi eu mostro que a questão da leveza mudou de status desde meados do século 20. A leveza não é mais apenas do imaginário: o mundo inteiro se reconstruiu através do princípio da leveza. Observe a evolução da tecnologia. No passado a potência era pesada: as grandes estradas de ferro, as usinas… hoje em dia as empresas que mais crescem como Google - não vendem nada. É tudo virtual. É a época da desmaterialização. É mais leve do que o leve. O virtual é hoje o vetor do crescimento. A leveza se tornou o princípio da realidade do mundo.

Um segundo aspecto: no corpo se vê a marca da revolução da leveza. Pense na evolução da medicina, veja a obsessão com a magreza e também a evolução do esporte: surf, windsurf, asa delta…


BBC Brasil - E o poder, especialmente o político? Há leveza nele ou ainda é um elemento "pesado" na nossa sociedade?

Lipovetsky -
Sim, vou chegar nisso. De fato em relação à política há uma outra questão. Mas vou terminar (o ponto anterior) rapidamente porque há uma conexão…

O terceiro exemplo que me parece essencial. Já disse o primeiro - os objetos -, o segundo - o corpo -, e o terceiro é o capitalismo. Porque, o capitalismo moderno, a partir da revolução industrial do século 19, repousa sobre o peso. São os equipamentos de estrada de ferro, as grandes máquinas e ferramentas, tudo é pesado. Hoje estamos num capitalismo de sedução. Nós apenas celebramos os prazeres, o lazer, a distração. Por todos os lados vemos a lógica da fuga.


BBC Brasil - É o consumo "das experiências"...

Lipovetsky -
As experiências de viagem, de prazer… Tudo isso é muito leve. São as promessas de felicidade. O que eu digo é que o capitalismo hoje em dia não é mais um capitalismo que é severo. Ele é severo para o trabalhador, mas não para o consumidor. É um sistema que funciona como a moda. Ele se baseia em coisas superficiais. Observe por exemplo os videogames, as séries de televisão…Tudo isso é extraordinariamente leve. Não há mensagem profunda, tudo é lúdico.

Agora, a questão é: todas as esferas obedecem este princípio de leveza? A política, ela tenta pegar esse bonde andando. Claramente, por exemplo, no desenvolvimento do marketing político. Antes, os políticos tinham aparência austera, em comícios, para fascinar as massas. Não temos mais políticos como antes. Eles aprendem a falar em cursos de comunicação, aprendem como ser legais, como agradar as pessoas. Fazem promessas sem parar.


BBC Brasil - Tentam ficar "leves" se distanciando da política, e se apresentando, por exemplo, como gestores?

Lipovetsky -
Sim, exatamente. Mas aí é um aspecto interessante. O capitalismo de fato é bem sucedido em seduzir os consumidores. Eles adoram! Eles criticam, mas eles adoram! A política não é assim: quanto mais os políticos querem seduzir, menos conseguem fazê-lo.

Porque há hoje um imenso desapontamento dos cidadãos em relação à política, eles não confiam mais na classe política. A grande característica da nossa época é a perda da confiança na classe política. A política não é leve.

Todos os dias a gente vê na imprensa que pegaram dinheiro, que há corrupção… Então há algo de estranho nessa sociedade em que tudo deve ser atrativo e a política não é mais atrativa: ela é repulsiva.


BBC Brasil - Mas repulsiva no sentido de que as pessoas abandonaram o engajamento político e estão mais individualistas?

Lipovetsky -
Sim, mas o individualismo não significa necessariamente um desengajamento. Observe as pessoas que se engajam em associações: há muitas, até mais do que antes. O que mudou é a maneira de se engajar.

Antes, o engajamento na vida política era um pouco como uma religião, e hoje em dia não é assim. As pessoas não querem sacrificar nada, mas isso não quer dizer que elas não tenham mais interesse pelos assuntos da política. Hoje em dia, as pessoas ouvem, refletem, mas no fim pensam "bom, vou fazer o que eu quiser". Isso é o individualismo, não é o egoísmo. É a autonomia das pessoas que não são mais controladas de uma maneira pesada pelos aparelhos.

Mas, ao mesmo tempo, vemos que os cidadãos se mobilizam quando há algo que eles julgam importantes, mas em ações mais pontuais, não mais em grandes ideologias gerais. Por exemplo, se você é ecologista, você vai se engajar neste campo, ou no campo do feminismo, do casamento gay, e as pessoas vão se engajar nestes temas. Antes era direita e esquerda, capitalismo ou socialismo. Nas grandes ideologias, as pessoas não acreditam muito mais. Elas querem coisas mais pragmáticas.

Então, isso criou um novo tipo de relação com a política e que, acho, deve nos levar a repensar os meios para melhorar o mundo. Porque se não é mais a política que tem a força de mudar o mundo, então o que seria? E eu acho que uma das grandes forças que deve fazê-lo é a educação.


BBC Brasil - Queria falar sobre a mídia e as "fake news", as notícias mentirosas. A grande mídia parece conviver com essas novidades, e também com formas independentes de jornalismo. Que papel tem a mídia na nossa sociedade hoje?

Lipovetsky -
Fake news é um termo que entrou muito na moda este ano, mas não é nada novo. Desde o século 19 há denúncias de manipulação e notícias falsas na mídia. A novidade é que 'fake news' agora podem ser difundidas por órgãos de comunicação que não são como os jornais e a televisão. Normalmente isso passa pelas redes sociais. Então, não é (uma ação) centralizada.

Na minha opinião, há uma ameaça, com os novos meios de comunicação, de se minar a força da mídia tradicional. E acho que isso é perigoso. Acho que precisamos de mediadores.


BBC Brasil - Por quê?

Lipovetsky -
É perigoso para aqueles que não têm as ferramentas se orientar nesse magma de informação. Se você é alguém com educação, se você consegue distinguir informações, não está perdido. Mas muita gente não tem isso. Nós precisamos de mediadores porque não somos especialistas em tudo e é por isso que eu acho que é preciso defender a imprensa e ter uma ambição maior nas escolas, na educação. Não haverá solução sem isso, você será manipulado.

A exigência absoluta de sociedades desenvolvidas do século 21 será a educação. E não se trata de lançar palavras ao vento! É necessário investir. É uma responsabilidade do Estado. E não se pode pagar salários miseráveis a professores - como frequentemente acontece na América Latina. Professores não são uma despesa inútil, são uma obrigação para que se faça uma sociedade digna.


BBC Brasil - Mas em uma sociedade com tanta desigualdade como a brasileira, essa realidade é ainda mais complicada, não?

Lipovetsky -
As desigualdades não devem ser todas rejeitadas. Não se trata de demonizar as desigualdades, mas há desigualdades que são insuportáveis. É necessário que a desigualdade não arruíne o ideal democrático. Por exemplo, quando há apenas estabelecimentos de educação privados em condições de receber alunos enquanto outros não têm dinheiro para estudar, isso é muito grave. A desigualdade impede a democratização da sociedade porque tira a oportunidade de muita gente de se desenvolver.

Vocês têm um país muito rico. O Brasil é um continente em que há de tudo. E ao mesmo tempo, os resultados escolares aqui não são bons. Pegue como exemplo países pequenos como a Finlândia, a Dinamarca, Cingapura, a Coréia do Sul… o que eles têm como riqueza material? Nada.

São países que prosperam com nível de vida muito superior ao brasileiro, com resultados escolares excelentes, que têm mais capacidade de se adaptar à globalização, que são competitivos, que têm redes de proteção social. E não têm petróleo, não têm gás, não têm ouro… não têm nada! Eles têm a inteligência.


BBC Brasil - Mas eles não têm nossos índices de corrupção...

Lipovetsky -
Exatamente. E muito menos corrupção.


BBC Brasil - Da forma como o senhor coloca, parece como se dois mundos coexistissem. Um tradicional, antigo, pesado. E outro leve, mais coletivo, mais fluido, inclusive em relação a identidades. É um momento de transição?

Lipovetsky -
Eu acredito que é o prolongamento de algo que vai se perpetuar. Essa lógica é estrutural. Mas o que eu digo também no livro é que essa fluidez para os indivíduos acaba pesando. No livro eu mostro que não estamos no Nirvana. É o paradoxo: tudo é leve, mas você não está leve.


BBC Brasil - Pelo contrário, muita gente se cobra essa "leveza".

Lipovetsky -
Sim, e não somos (leves). Então, isso nos deixa ansiosos. Porque eu não sou feliz? Bom, antes as tradições e as religiões davam as respostas. As pessoas não ficavam se interrogando. Neste mundo fluido as pessoas mudam de profissão quando querem, mas aí ficam ansiosas em relação ao futuro. Então, o mundo da leveza se tornou pesado para os indivíduos.

A fluidez é tão pesada para algumas pessoas que elas buscam soluções para escapar a este vazio. Dou um exemplo fácil de entender: o caso dos "jihadistas". São em geral jovens, nascidos na Europa - eles não vêm do Oriente Médio, são nascidos na França ou na Inglaterra. Eles escutaram rock, viram séries americanas, usavam jeans, iam a boates.

Eles conheceram esta vida leve, mas não encontraram seu lugar nela. E, em geral, têm uma imagem deles mesmos muito deteriorada. Em resumo: eles não amam as próprias vidas e estão em conflito interior. E é esta ansiedade em relação a eles mesmos que os faz buscar causas absolutas porque isso lhes devolve a dignidade. Isso lhes dá um peso pessoal, os ancora.

Então aí, você vê o paradoxo da leveza que se transforma em seu contrário. No terrorismo, na violência terrível em que se atemoriza toda uma população. E isso eu não acho que seja transitório. Acho que vai continuar.


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

Entrevista - "Brasil ainda faz política com afeto, não com a cabeça"

Protesto contra corrupção em Brasília


Há pouco mais de 80 anos do lançamento do clássico Raízes do Brasil, o "homem cordial" de Sérgio Buarque de Holanda, que não distingue o público do privado, parece ainda presente na sociedade brasileira, apesar das previsões do intelectual que a cordialidade desapareceria com a industrialização.

Em 1936, Sérgio Buarque de Holanda apresentou pela primeira vez o conceito, resultado de uma sociedade rural autoritária caracterizada pela família patriarcal. Segundo o intelectual, esse homem cordial dominou as estruturas públicas do país, usando-as em benefício próprio.

No entanto, não foi exatamente isso o que ocorreu. Para o historiador João Cezar de Castro Rocha, a cordialidade é uma característica de sociedades hierárquicas e desiguais. Em entrevista à DW Brasil, o autor dos livros Literatura e cordialidade: O público e o privado na cultura brasileira e Cordialidade à brasileira: mito ou realidade? debate o conceito de homem cordial e sua ligação com a corrupção.

"O problema da corrupção endêmica no Brasil só terá solução quando efetivamente constituirmos uma nação, quando em lugar de homem cordiais e elites que se consideram superior aos outros, nós formos de fato todos cidadãos", destaca Castro Rocha.


DW Brasil: O conceito de "homem cordial" parece mais atual do nunca. Mas Sérgio Buarque de Holanda previa que ele desapareceria com a industrialização e o fim da sociedade rural. Na sua opinião, por que ele não desapareceu?

João Cezar de Castro Rocha:
Eu proponho que, na verdade, o homem cordial não é apenas fruto de uma sociedade agrária, mas característico de uma sociedade hierárquica e desigual, como a sociedade brasileira, que foi fundada sobre o trabalho escravo e que ainda hoje mantém a consequência do longo período de escravidão. Então, o homem e a mulher cordiais não apenas permaneceram, como pelo contrário, cresceram e estão muito fortes.


E isso é visível também na política?

A atual política brasileira, marcada por uma polaridade radical, por intransigência inédita e por uma intolerância completa é absolutamente cordial no sentido próprio do termo, ou seja, é uma política que se faz com afetos, com estômago e não com a cabeça.


A corrupção seria característica própria do "homem cordial"?

Seria ingenuidade imaginar que o homem cordial é por vocação mais corrupto do que a seriedade alemã ou puritanismo anglo-saxão. A corrupção faz parte de toda e qualquer estrutura de poder, mas a questão central de uma corrupção que pode ser caracterizada como cordial é a sua associação com a ideia da hierarquia e da desigualdade.

No Brasil, historicamente, há uma elite que se considera realmente superior ao restante da população e que, por isso, considera ter direito a saquear a coisa pública. Nós não temos um Estado no sentido próprio do termo, temos é um aparato estatal apropriado pelas elites.


O senhor fala da corrupção nas elites, mas é possível afirmar que ela ocorre também nas camadas mais baixas, que é algo generalizado?

É preciso diferenciar a corrupção de uma sociedade que tem um cotidiano esquizofrênico. Em 1808, quando a família real veio para o Brasil, não havia casas suficientes, e o rei mandou pintar nas portas de algumas a inscrição "Propriedade Real”, PR, obrigando os donos a deixá-las para os nobres portugueses. O povo traduziu PR como "ponha-se na rua”. A história da cultura brasileira é uma oscilação constante entre propriedade real e ponha-se na rua.

Existe uma lei e sabemos que ela não é cumprida porque não há as condições práticas para cumpri-la, ao mesmo tempo, não podemos verbalizar o caráter vazio da lei, então, desenvolvemos uma sociedade profundamente esquizofrênica no sentido próprio do termo. Dizemos A sabendo que precisamos fazer B. Eu faria uma diferença entre o princípio esquizofrênico e a corrupção.


Qual seria essa diferença?

Há um princípio de maleabilidade que pode levar a uma corrupção, mas eu diria que corrupção hoje no Brasil é a apropriação privada dos recursos públicos. Não dá para comparar o senhor Emilio Odebrecht, roubando bilhões de dólares, com o pobrezinho do brasileiro que no serviço público oferece um cafezinho para o atendente. Se dissermos que tudo é a mesma corrupção é mais um meio que a elite tem de se desculpar.


Mas o jeitinho, esse desvio do cotidiano, não legitimaria de alguma forma a corrupção nas grandes esferas?

Acho isso é um equívoco, pois o que está à disposição da elite brasileira, das empreiteiras, dos partidos políticos e de políticos não é um jeitinho, é um tremendo jeitão, não tem comparação. Além disso, a sociedade foi organizada de uma forma esquizofrênica, o Estado sempre impôs ao povo inúmeros PR e o jeitinho é uma estratégia, em alguns casos, para driblar a impossibilidade de cumprir o PR.

Mas se simplesmente legitimarmos o jeitinho, nós estaremos favorecendo a corrupção. Acho importante que, no cotidiano, o brasileiro comece, por exemplo, a apenas atravessar o sinal quando ele estiver aberto para pedestres. É muito importante uma mudança de cultura.


Como seria possível acabar com esse ciclo desta corrupção generalizada?

Do ponto de vista do Estado brasileiro é preciso acabar com esse discurso tolo de que tem muito Estado no Brasil, pois não tem. O Brasil tem Estado de menos para o que de fato importa. É preciso ainda implementar mecanismos eficientes de controle que tenham como base a transparência. Do ponto de vista da sociedade é começar uma discussão a longo prazo que necessariamente deve passar pela educação e, sobretudo, por uma consciência crescente para mudarmos nossa forma de agir no trato diário. Por exemplo, não posso defender a universidade pública e não dar minhas aulas.

O problema da corrupção endêmica no Brasil só terá solução quando efetivamente constituirmos uma nação, quando em lugar de homem cordiais e elites que se consideram superior aos outros, nós formos de fato todos cidadãos.


O que é preciso combater?

É preciso combater uma sociabilidade que se baseia em tratar o público como o privado, e isso são o homem ou a mulher cordial. A sociabilidade cordial é movida pelo coração, tanto ama quanto odeia, tanto pode ser autoritária quanto afetiva, mas impõe fundamentalmente a ordem pública a lógica do privado.

Sem dúvida para superar esse tipo de corrupção precisamos fazer que o Estado brasileiro finalmente seja público e deixe de ser um parque de diversões para que as elites econômicas, políticas e financeiras deste país continuem tirando os recursos públicos como se fossem privados.


Fonte: Jornal Deutsche Welle (Alemanha)

Dez coisas que você jamais poderia votar a favor enquanto segue a Jesus



Por: Abraluiz


Ser cristão significa “ser um pequeno Cristo”, sermos pequenos Cristos é o que chamamos de “seguir a Cristo”. Entretanto, seguir a Cristo implica certas coisas, motivações, sentimentos, ações e princípios.

Pode alguém que faça todas as coisas citadas por esta lista, chamar a si mesmo de “cristão”? pode, infelizmente isso acontece sempre. Isso ocorre com tanta frequência que uma grande parte da sociedade possui uma imagem obscura e negativa do cristianismo e da cristandade.

Você está seguindo a Jesus e sendo um cristão enquanto vota a favor destas coisas ? NÃO!


1- Leis anti-LGBT’s

Pergunte a si mesmo: “Quem Jesus discriminou?”.

Enquanto pensa na resposta, tenha em mente que enquanto os fariseus encorajavam a discriminação de mulheres, cobradores de impostos, pobres e samaritanos (que eram odiados pelos judeus), Jesus escolheu incluir radicalmente a todos estes grupos. Cristo nunca disse “proíba gays de serem quem são” ou ” nunca permita que LGBT’s e pessoas de outras religiões tenham os mesmos direitos que os teus”. Pelo contrário, Cristo nos encorajou a amar nossos irmãos como nós amamos a nós mesmos. Ao vermos alguém, antes de ver um LGBT ou um hétero, precisamos ver uma pessoa, que possui uma dignidade humana que merece ser respeitada. Num viés mais cristão, antes de vermos alguém como LGBT ou hétero, precisamos ver alguém como uma filha ou um filho de Deus, merecedora de amor, respeito, liberdade e dignidade.

Cristo agiu assim, agora cabe a nós seguir seus passos.


2- Leis anti-imigrantes

O cristianismo possui uma herança judaica. Ambas as religiões possuem como patriarcas, Abraão e Sara.

Nossos antepassados espirituais foram guiados por Deus para levar tudo o que tinham e viajar. Moisés levou os hebreus do Egito para o deserto e depois para outras terras (onde já haviam habitantes). Até Jesus, Nosso Senhor, passou parte de sua infância como estrangeiro. Como está descrito em Êxodos, sabemos como é se sentir forasteiro em terras estrangeiras. Nossa fé e ancestralidade espiritual surgiu como forasteira, mas se você ainda não acredita que “se sentir estrangeiro em terra estrangeira” não faz parte da nossa história, pergunte aos índios, eles saberão te responder com toda certeza. Na melhor das hipóteses, ser cristão e votar a favor de afastar imigrantes nos faz hipócritas; na pior das hipóteses nos torna traidores de nossos antepassados e de nosso Deus.


3- Políticas que vulnerabilizam os mais pobres à fome

Uma certa vez, um homem sábio chamado Gandhi disse que existem pessoas no mundo com tanta fome, que Deus não poderia aparecer para elas, exceto na forma de pão.

A fome é denunciada na bíblia pelos profetas e livros poéticos como algo grave para a sociedade. Uma sociedade atacada pela fome, terá problemas com a educação,produção e comportamento civil, todos fatores determinantes para uma sociedade bem sucedida. A pessoa que quer seguir a Cristo, precisa ter em mente que Jesus disse que quando alimentamos os mais necessitados, estamos alimentando a Deus.


4- Políticas que fazem opção pelos mais ricos ao invés dos mais pobres

Políticos ou apenas eleitores, que fazem opção pelos mais ricos dão um tapa na cara de Jesus, sua vida, seu ministério e seus ensinamentos. Amós, Isaías e outros profetas igualmente denunciavam o comportamento dos ricos que se esbanjavam em riqueza advindas de exploração, enquanto os pobres passavam por fome e nudez.

Em termos de cristianismo, é ruim quando permitimos que pobres sejam explorados por ricos. Entretanto, terrivelmente pior é a criação de leis que estimulam e protejam este comportamento. Isso fica claramente irônico, quando imprimimos “Deus seja louvado” em nosso dinheiro.


5- Estimular guerra, confrontos, ditaduras e torturas

Há algum motivo para Cristo ser chamado de “Príncipe da Paz”. Isso está ligado diretamente a sua natureza, ao seu ministério, aos seus ensinamentos e ao seu evangelho.Como refutação você poderia citar de forma descontextualizada a frase que fiz “Eu não vim para trazer paz, mas espada”, de forma que poderia justificar massacres, cruzadas, assassinatos e guerras em nome de Deus. É óbvio que este verso não gera nem uma faísca de luz diante dos 50 e outros versos onde Cristo fala sobre a paz e a pacificação.

Uma das maneiras de não amar o seu próximo (muito menos como a ti mesmo) é matando ele. Existe uma razão para as escrituras chamarem de “Deus é amor” e o nosso desafio como cristãos é viver como ele, e ser como ele (praticarmos o amor ao próximo). As guerras e os confrontos com certeza fogem do conceito de irmandade universal, de amor, da paz e do Reino de Deus. Somos desafiados por Cristo a buscarmos o seu Reino e a sua Justiça, assim entendemos que se no Reino de Deus não há fome, nem guerra, nem perseguição, nem preconceito, buscar seu Reino e justiça implica a buscar todas essas coisas.

No final o amor vence!


6- Limitar o acesso gratuito a saúde

Como seguidores de Cristo, devemos seguir também seus passos (cf. 1° Pedro 2:21). Isso significa que devemos imita-lo o máximo possível que conseguirmos, sendo que Jesus nos diz que somos capazes de fazer obras maiores do que as que ele realizou na terra (João 14:12). Sabemos que o estado não consegue repetir os milagres de Jesus, mas a medicina moderna consegue chegar bem próximo das maravilhas que vemos nos evangelhos e erradicar doenças e epidemias. Há uma pesquisa norte-americana que diz que de 45000 pessoas que morrem nos EUA, 20000 morrem por falta de acesso a saúde.

Nós cristãos falamos muito sobre “salvar pessoas”. Muitas pessoas verdadeiramente seriam salvas no mundo através do acesso gratuito a saúde, principalmente aquelas sem condições financeiras.


7- Desvalorização da educação/limitar o acesso gratuito e de qualidade para todos

Nós aprendemos em Provérbios, assim como em outros livros sapienciais, de que a sabedoria é algo que Deus se deleita noite e dia. A Sabedoria é por Deus tão valorizada, que alguns teólogos costumam interpretá-la, através dos livros sapienciais, como uma face feminina de Deus (Sophia). Segundo as escrituras, melhor é a Sabedoria do que o ouro (cf. Provérbios 8:11)

Em nossos dias, principalmente no Brasil, vemos como a educação pública sofre maus índices. Os professores, que são os ministradores do conhecimento e sabedoria são desvalorizados e muitas vezes desrespeitados pelo governo. As escolas públicas do país possuem sérios problemas com infra-estrutura. Não se investe em educação o quanto é necessário e o rendimento ainda é baixo. Infelizmente se deliciar em sabedoria é algo que o nosso governo não faz mais. A educação é um fator importantíssimo para o desenvolvimento do país e o seu acesso deve ser destinado a todos (independente de sua nacionalidade, cor, gênero, ou classe social). Limitar o acesso a educação é privar alguns de um direito essencial para a vida em sociedade.

Para seguirmos a Jesus, devemos tornar a educação uma prioridade, afinal de contas ele era um Rabi (professor).


8- Pena de morte

Jesus Cristo morreu por pena de morte.

Jesus foi condenado a execução pois era visto como uma ameaça ao sistema religioso da época, um agitador que estava desestabilizando a ordem pública.

Jesus era inocente. Seu movimento carismático e profético irritava as autoridades conservadoras e fundamentalistas da época.Todos os anos pessoas inocentes morrem por execução realizada pelo estado. Não há nenhuma prova de que a punição extrema e desumana da pena de morte reduza ou combata a criminalidade. Outro fato importante é que a pena de morte é discriminatória, sendo aplicada desproporcionalmente contra pobres, minorias, alguns grupos étnicos e raciais, grupos religiosos e etc.


9- Forçar através de políticas, pessoas a seguirem sua religião e princípios morais.

Uma das coisas mais marcantes no evangelho de Cristo e seu ministério, foi sobre sua mansidão. Cristo respeitava a liberdade dos outros, pois uma das consequências do amor é a liberdade, se há coerção não há amor, não há liberdade.

Se alguém ama outrem, aquele irá permitir que as pessoas andem com suas próprias pernas, façam suas decisões e pratiquem seu livre-arbítrio . Cristo era o “Príncipe da Paz” mas estava longe de ser um rei com governo físico e o mais importante é notar que Cristo não era um ditador. Impor sua religião pessoal, crenças ou princípios morais/religiosos sobre outras pessoas, não tem nada a ver com a maneira que Cristo praticou sua fé e seus ensinamentos. Se você impõe sua fé sobre outros, apoia a oração obrigatória do Pai Nosso em escolas e ambientes públicos, se você apoia a imposição de regras morais sobre a vida de pessoas através do estado, você não é um Cristão.


10- Jair Bolsonaro

Ver 1-9.


Fonte: Blog O Evangelho Social

A nova cara da sífilis

Ilustração: Zansky
Foto: Dulla (Superinteressante)

Começa com um machucado. Indolor, costuma não ser bonito, mas também não é o fim do mundo. Quando aparece na área genital, fica evidente nos homens, mas pode acabar escondido dentro da vagina sem chamar qualquer atenção. Há ainda outros casos discretos, como na garganta ou no ânus. Aí, quando você está começando a se preocupar, Bam! Desaparece. Parabéns! Seu sistema imunológico é mesmo incrível, né? Na verdade, não. Você só passou para a próxima etapa de uma doença que, a curto ou longo prazo, pode atacar seu cérebro, mudar a estrutura dos seus ossos, deformar seu rosto e matar seus filhos. Você tem sífilis.

Essa história está se repetindo mais do que o esperado no Brasil. Em outubro, o Ministério da Saúde reconheceu que a situação estava fugindo do controle e decretou a epidemia. Não é exagero, nossos números são assustadores. Desde 2010, quando os hospitais passaram a ser obrigados a repassar seus dados sobre a doença para o ministério, foram notificados quase 228 mil novos casos; só entre 2014 e 2015 houve um aumento de 32% nos casos de sífilis entre adultos – e mais de 20% em mulheres grávidas. A maior parte dos casos está na região Sudeste (56%), a mais urbanizada e desenvolvida do País. Só para ter uma ideia do desastre, em 2015 tivemos 6,5 casos de bebês infectados a cada mil nascidos vivos; o valor é 13 vezes maior do que a Organização Mundial da Saúde considera aceitável.

Agora, se você não prestava realmente muita atenção nas aulas de educação sexual, é bem capaz que não saiba o que é, de fato, essa doença. Sífilis é o nome dado à infecção decorrente da bactéria Treponema pallidum. Ela invade o corpo em quatro fases. Cada etapa determina o quão dominado ele está pelos micro-organismos. A primeira, já citada no começo desse texto, é rápida (dura no mínimo quatro e no máximo oito semanas) e se manifesta como uma ferida indolor que desaparece sozinha, sem deixar rastros. O fato de o machucado não doer está longe de ser bondade. É estratégia de sobrevivência das bactérias. Se não dói, dá para transar – e disseminá-las. A segunda fase é ainda mais favorável para os micróbios. A doença volta a dar as caras entre seis semanas e seis meses após os machucados genitais sumirem. O infectado pode apresentar feridas pelo corpo, manchas vermelhas e, sobretudo, lesões na palma das mãos ou dos pés – sintomas que podem ser facilmente confundidos com uma alergia cutânea. E adivinha só: se você tomar um antialérgico, é provável que as feridas sumam. O que é péssimo. As reações afinal são tentativas do corpo de sinalizar a doença, e uma medicação equivocada para abafar os sintomas mascara o pedido de socorro. Uma vez que os sinais se vão mais uma vez – mesmo sem medicação isso acontece -, passe livre para voltar a transar e multiplicar a espécie – da bactéria. E começa a terceira fase da doença: a sífilis latente. O nome não é à toa. Nesse período (que pode durar até 40 anos), a sífilis fica reclusa. Na verdade, ela perde até seu caráter infeccioso; ou seja, o portador não passa mais a bactéria para frente. Fica tudo bem até explodir a sífilis terciária, fase aguda da moléstia. As úlceras que começam a brotar pelo corpo são tão agressivas que, em regiões de contato direto da pele com ossos, como no crânio, o esqueleto começa a ser corroído. Na tíbia, principal osso da canela, o corpo até tenta combater a degeneração: conforme a erosão óssea aparece, o estrago vai sendo calcificado. A região afetada começa a engrossar e, com o avanço do desgaste, a canela vai ficando curvada. Em alguns casos, a bacia também é afetada e o doente perde a capacidade de andar em linha reta. Uma das maneiras mais antigas de identificar portadores de sífilis, inclusive, é ver se a pessoa caminha como um pato, rebolando por causa da bacia deteriorada. Implacável, a infecção ainda ataca os sistemas vascular e nervoso – o que pode acontecer precocemente entre a primeira e a segunda fase. Quando a bactéria finalmente ocupa o cérebro, o infectado começa a sentir alterações de humor e pode desenvolver demência. É a chamada neurosífilis. Nesta última fase, finalmente, transar não ameaça mais aos outros. A sífilis deixa de ser infecciosa e quer acabar somente com o portador.


Barato saindo caro


Nessa violenta investida pelos nossos corpos, as bactérias não perdoam ninguém. E um dos alvos mais frágeis é um grupo que tem sofrido particularmente com epidemias recentes no Brasil: as grávidas. Assim como o zika, a sífilis não poupa os bebês. Se uma gestante está infectada, em qualquer fase da doença, a criança pode nascer com sífilis congênita. 59% das crianças nascidas de mães com sífilis também apresentaram sinais da bactéria. A condição pode ocasionar más formações neurológicas e ósseas, além do óbito – em 2015, 1,4% das crianças nascidas com sífilis congênita não sobreviveu. Não dá para dizer que é um número pequeno. Quando olhamos para o panorama geral, isso significa que, a cada 100 mil nascimentos, sete crianças não vivem nem um ano, por causa da bactéria.

Mesmo diante desse cenário de guerra, a sífilis está longe de ser uma sentença de morte. A infecção pode ser curada com um tratamento barato e ridículo de simples: algumas doses de penicilina. Se a doença for diagnosticada no primeiro ano, a cura se resume a apenas duas injeções de benzetacil, uma em cada glúteo. Sim aquela mesma que você encontra na farmácia – e pode ser administrada, inclusive, para grávidas. Se o diagnóstico só aparecer mais tarde, sem problemas: penicilina cristalina (uma versão mais poderosa do antibiótico) nela, dessa vez por um pouco mais de tempo, duas injeções por glúteo em três doses semanais. Esse procedimento consegue até mesmo impedir a passagem da bactéria da grávida para seu filho. O tratamento na mãe também cura a criança. Quanto mais cedo o tratamento nela, menores os danos no bebê. Mas, caso a mãe dê à luz sem eliminar a bactéria do corpo, o bebê é automaticamente medicado. Recebe cristalina na veia por 10 a 14 dias – isso não recupera problemas neurológicos ou ósseos já causados pela doença, mas evita que a sífilis continue atacando o recém-nascido.

Mas como é que o Brasil conseguiu virar palco de uma epidemia tão facilmente curável? Umas das justificativas utilizadas pelo Ministério da Saúde é a queda no uso das camisinhas. Ela, de fato, é real – mas fica difícil jogar toda a responsabilidade em cima disso, porque os números da queda não são tão expressivos assim: em 2004, 58,4% dos jovens de 15 a 24 anos usavam o preservativo em relações casuais; em 2013 (ano da pesquisa ministerial mais recente sobre o assunto), o número baixou para 56,6%. No uso dentro de relações estáveis a proporção é parecida: em 2004 eram 38,8%; em 2013, 34,2%. O mais provável é que a acessibilidade da penicilina tenha passado de nossa maior aliada para nossa maior inimiga. O preço modesto, que deveria facilitar o acesso da população à droga, desestimula a indústria farmacêutica a fabricá-la. Resultado: em 2015, faltou penicilina nas prateleiras do Brasil. E mesmo quando havia remédio aparecia um problema: ninguém na rede pública queria aplicá-lo. Até julho de 2015 era proibida a aplicação do medicamento pela equipe de enfermagem de locais que não estivessem equipados para evitar um choque anafilático. Na prática, se o posto de saúde não tivesse material para uma entubação, por exemplo, não poderia medicar portadores de sífilis. Pior ainda, se um enfermeiro do local resolvesse administrar penicilina, poderia ser responsabilizado por isso. O resultado foi o medo: segundo o Ministério da Saúde, 50% das equipes médicas evitavam aplicar penicilina por causa desse receio. Há também uma culpa paterna pela disseminação da doença: 62% dos parceiros de mulheres grávidas com sífilis não tomam os medicamentos, dando continuidade ao ciclo da bactéria. Além disso, estamos ajudando as estatísticas contabilizando com mais precisão o número de casos nacionais de sífilis. Desde 2010, o diagnóstico é atrelado a uma notificação compulsória, ou seja, sempre que ela é detectada, esses dados têm se ser enviados ao ministério, para que o órgão entenda o tamanho do surto pelo qual o País está passando. Vale ressaltar, porém, que isso não deveria aumentar o número de sífilis em crianças e grávidas. Desde 1986 o repasse de informações ao ministério é obrigatório para casos de sífilis congênita, e desde 2005 para os diagnósticos em gestantes. Mas a lógica segue: quanto mais preciso e amplo vai ficando o sistema, mais os números crescem. Isso dá margem para pensar que a epidemia pode estar acontecendo há mais tempo do que imaginamos.


Você é de onde?

Não se sabe exatamente quando, onde e como a sífilis surgiu. Uma das teses mais aceitas é de que a infecção seja uma doença das Américas que chegou à Europa quase que junto com a notícia do descobrimento do continente. Os pioneiros das grandes navegações teriam contraído a bactéria, que foi espalhada pela Europa quando eles retornavam para casa. Uma das evidências nessa direção é que a bactéria realmente existia por aqui antes de Cabral aportar. “Encontramos ossadas com mais de 4 mil anos de índios que tiveram sífilis”, afirma José Filippini, professor do Instituto de Biociências da USP. Para detectar a infecção, Filippini se aproveitava do estrago que a doença faz no corpo. “A sífilis tem marcas muito claras. Se eu pego uma tíbia (osso da canela) em formato de sabre, por exemplo, sei que as chances de ser um sifilítico são altas”, conta. Outra teoria é a de que a sífilis sempre existiu na Europa, mas era diagnosticada equivocadamente. “Ela pode ser confundida com a lepra, por exemplo. Os que concordam com a teoria da sífilis pré-colombiana afirmam que ela talvez seja tão antiga quanto a humanidade. Diversas pesquisas afirmam que a bactéria surgiu na África e foi se espalhando pelo mundo junto com nossos ancestrais.


De volta para o futuro


O Ministério da Saúde, por meio da diretora Adele Benzaken, do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, explicou à SUPER como está tentando controlar a doença. “A sífilis nunca foi vista como prioridade aqui no Brasil. Declará-la oficialmente como epidemia, construir uma agenda sólida para o controle dela e pedir ajuda da população a respeito é importante para reverter o quadro”, expõe Adele. “Você tem que examinar a situação. Analisar os grupos mais vulneráveis (prostitutas e usuários de drogas, por exemplo) e o restante da população. Se há um aumento repentino no número de infectados, e onde eles estão aparecendo. A sífilis é uma doença que precisa ser analisada por um tempo para entendermos se é um surto ou uma epidemia”, afirma Adele. Declarada a epidemia, os holofotes da mídia se voltam para o assunto, o que ajuda na conscientização popular. “Desde outubro eu não paro de dar entrevista sobre isso. Acho que deu certo”, diz.

Mas expor a situação ao público é só uma das frentes de batalha. Outras medidas urgentes estão em curso. Com a declaração da epidemia, o governo está articulando para liberar o preço da penicilina, para que fique mais cara. E isso é bom para o combate à sífilis. Apesar de soar contraintuitivo, a realidade é que a indústria farmacêutica não tinha interesse em produzir um medicamento que não lhe desse uma margem de lucro alta – mesmo que curasse centenas de milhares de pessoas. Negócio é negócio. Agora, a ideia é estimular um aumento na produção do remédio. Em 2016, como medida paliativa, mais de 1 milhão de doses do antibiótico foram importadas; outras 700 mil foram compradas aqui dentro. O plano é que o estoque atual dure até o fim de 2017, e que já em 2018 a produção atenda à demanda nacional.

Um parecer do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) também liberou a aplicação em postos de atendimento. “A restrição era absurda, a cada 100 mil são menos de três casos em que ocorre choque anafilático. É mais fácil ter uma reação dessa comendo algo em um restaurante – e lá não tem desfibrilador”, afirma Vencelau Pantoja, do Cofen.

Há também um cuidado progressivo com os diagnósticos. Entre 2001 e 2015 os testes rápidos entregues pelo SUS passaram de 1 milhão para 6 milhões; o Ministério da Saúde afirma que está instruindo médicos a falar sobre DSTs e a distribuir o exame na primeira consulta de pré-natal. Nesses casos, o resultado sai na hora, e a mãe já pode iniciar o tratamento. Outra promessa é uma parceria com o Ministério da Educação para que a sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis,sejam apresentadas em sala de aula.

Dificilmente essas boas práticas resolverão o problema da sífilis no Brasil, mas podem amenizar o cenário. Ainda que, sem sentir dor, muitos brasileiros infectados não estejam nas preocupantes estatísticas só porque não foram ao médico perguntar sobre aquela feridinha que, olha só, já passou…


Do nível 1 ao game over

A sífilis funciona em fases. Os diferentes sintomas (ou a falta deles) ajudam a determinar a gravidade da infecção

1. Primária – Duração: 4 a 8 semanas
Na início, o único sintoma é uma ferida, indolor, na área infectada (pênis, vagina, ânus ou garganta). O machucado some no fim dessa fase.

2. Secundária – De 2 a 6 meses
Os principais sinais são machucados pelo corpo. Eles aparecem espalhados, mas se concentram na palma das mãos e nos pés.

3. Latente – De 2 a 40 anos
As feridas e os sintomas desaparecem. A partir desse estágio, ela não é mais contagiosa.

4. Terciária – Até a morte
A sífilis reaparece potente: deforma as pernas e ataca o rosto e o cérebro.


Fonte: Revista SuperInteressante

Crise, falência estatal e desemprego levam a explosão no número de moradores de rua no Rio

Quantidade de moradores de rua praticamente triplicou no Rio nos últimos anos


Jorge Luiz de Souza já foi pedreiro na construção civil, operador de caldeira na indústria cervejeira, operário na indústria química, dirige caminhões. Mas sua rotina hoje, aos 37 anos, se resume a passar as noites na rua e os dias procurando emprego no Rio.

"Experiência eu tenho muita, só não faço dinheiro", diz com uma risada amarga, levando nas costas a mochila acumulando seus principais pertences.

"O terrível é que hoje não tem nada. Todas as portas estão fechadas. Eu sei fazer, é só ter oportunidade. Mas ninguém está contratando, independentemente da minha experiência."

Jorge acabara de receber um pão com presunto e um café quente servido num copo de plástico no Largo da Glória, onde cerca de 300 moradores de rua se juntam bem cedo nas quintas-feiras à espera do café da manhã oferecido pelo Projeto Voar.

O grupo de voluntários repete a ação três vezes por semana, em três pontos diferentes no Rio. O número de moradores de rua teve um aumento vertiginoso nos últimos anos, tendo praticamente triplicado de 2013 para cá.

Em abril deste ano, o número de pessoas vivendo nas ruas da cidade chegou a 14.150, de acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos - contra 5.580 em 2013.

Para a secretária da pasta, Maria Teresa Bergher, a conjunção de dificuldades do momento atual ajuda a explicar o aumento.

"Vivemos uma crise econômica muito séria no país e o Estado do Rio está falido. O desemprego agora apresentou queda em todas as regiões do Brasil, menos no Estado do Rio", afirma Bergher. "Tudo isso faz com que tenhamos uma situação bastante séria."

É o avesso do otimismo despertado com o ciclo dos megaeventos dos últimos anos, diante da Copa do Mundo e dos Jogos Rio 2016.

"Muitas pessoas vieram para o Rio nos últimos anos porque a cidade foi vendida com uma imagem de beleza e de promessa. Mas muitas pessoas que vieram com esperança de emprego e de uma vida melhor acabaram ficando nas ruas", diz a secretária municipal.


Primeira vez na rua

Jorge já tinha ficado desempregado antes, mas a diferença é que sempre aparecia alguma coisa em pouco tempo. Agora não. Desde a demissão coletiva da empresa da área química onde teve carteira assinada por sete anos, não consegue nada.

Nunca tinha se imaginado dormindo na rua. Mas foi o que restou. Atualmente, quando não consegue vaga em um abrigo da prefeitura, se encolhe para dormir nas calçadas do Centro ou da Glória, e rapidamente aprende para onde não deve voltar.

É o caso do Aterro do Flamengo, onde tentara passar a noite anterior ao café da manhã, ao lado de sua mulher. Até que presenciaram três assaltos violentos em sequência. "A polícia fica no Aterro até as 22h e depois é um Deus nos acuda. Não dá para dormir lá", conclui Jorge.

O casal então buscou refúgio no monumento ao IV Centenário do Descobrimento do Brasil, na Glória. Inaugurada em 1900, a obra é pontuada por uma imponente estátua de Pedro Álvares Cabral, erguendo uma bandeira em postura de vitória e com inscrições louvando a descoberta da "terra bendicta". À noite, o pedestal de granito fica cercado de moradores de rua.

Efeito dominó

Silvia Aparecida de Souza, parceira de Jorge, está na mesma situação que ele. Perdeu o emprego de babá há um ano e meio. A patroa também foi mandada embora do trabalho e, ato contínuo, teve que demiti-la.

"Foi efeito dominó, caiu uma e depois a outra", resume Silvia, que tem 46 anos. "Foi muito difícil." De lá para cá, ela não conseguiu mais nada. "E não estou escolhendo não, faço faxina, o que pintar."

Os dois são de Petrópolis, na região serrana do Rio. Moravam juntos, mas tiveram que abandonar o endereço há dois meses, e agora passam a maior parte do tempo separados. Jorge dorme na rua ou em abrigos da prefeitura; Silvia geralmente dorme na casa da avó em Caxias, na zona oeste do Rio.

"Ficar na rua é muito perigoso para mulher. Se durmo com ele na rua, ele não consegue dormir, preocupado comigo", diz Silvia. "Mas quando estou na casa da minha avó e ele na rua, eu também não consigo dormir, preocupada com ele."

No Dia dos Namorados, no começo da semana, eles passaram o dia juntos, mas tiveram que se separar novamente à noite. "A gente fica com muita saudade", lamenta Silvia.


100 mil na rua

A assistente social Vanda Amorim coordena os cafés da manhã na Glória há quase 11 anos. Ela diz que, do começo do ano passado para cá, o número de frequentadores dobrou. O projeto passou a receber uma média de 150 moradores de rua em um dia para, atualmente, mais de 300 pessoas por edição.

"Temos visto pessoas que não fazem parte daquele contexto normal de moradores de rua, que já vivem há muitos anos de catar material reciclado ou, por causa de drogas, já se acomodaram nessa vida de sobrevivência na rua", explica Vanda.

"Têm outro perfil, estão mais arrumadinhas, têm uma linguagem boa. Esses aí não querem perder tempo. Geralmente tomam café para suprir a fome e vão logo embora", descreve. "Estão correndo atrás."

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil tem pouco mais de 100 mil pessoas vivendo nas ruas. A estimativa se baseia em dados 2015, já que não há estatísticas nacionais para medir a população de rua. Assim, é difícil acompanhar o avanço desses números e o impacto da recessão.

"O tamanho da população em situação de rua no Brasil sempre tem relação com pobreza, desigualdade social, infraestrutura urbana", afirma o pesquisador do Ipea Marco Antonio Carvalho Natalino, autor do estudo.

"A redução da atividade econômica e o desemprego não são os únicos fatores que levam as pessoas para as ruas. Mas com o aumento desses índices, estamos vendo isso com mais força agora. É visível. Há um aumento da população em situação de rua em todas as grandes metrópoles no Brasil", afirma Natalino, especialista em política pública e gestão governamental.

Natalino critica a falta de dados nacionais e atualizados para acompanhar a situação real no país, que seriam essenciais para formular políticas públicas adequadas para atender às demandas de moradores de rua.

"Populações de rua já costumam ser invisibilizadas. O Estado as torna ainda mais invisíveis por não produzir informações. Ele para de olhar para esse público como alvo de políticas sociais e de serviços públicos", considera.

Em São Paulo, cidade que concentra a maior população e o maior número de moradores de rua no país, os números estão defasados.

O último censo foi realizado em 2015, não havendo ainda uma atualização na gestão do prefeito João Doria (PSDB). De acordo com os dados disponíveis, a população de rua na cidade aumentou de 14.478 em 2011 para 15.905, em 2015.


Peregrinação por emprego de barriga vazia

Entre os pertences acumulados na mochila preta de Jorge está uma pasta com cópias de seu currículo, que já submeteu a empresas do Rio, de Petrópolis e de Minas Gerais.

O documento lista suas experiências profissionais, ensino médio incompleto e destaca, entre suas principais características, "excelente relacionamento interpessoal e capacidade de liderança".

Após o café da manhã, ele entrega uma cópia para voluntários do Projeto Voar, pedindo que lhe avisassem sobre oportunidades.

Sua rotina tem sido essa. "Amanheceu, saio à procura de emprego, vou batendo em portas para ver o que consigo. Só não consigo ir muito longe porque não tenho dinheiro para a passagem (de ônibus)", diz. "Você vai gastar uma energia e não tem um alimento no estômago. É duro".

Mas ele enfatiza que só está na rua por causa do desemprego.

"Não sou dependente químico, não consumo bebida nenhuma, tenho exames toxicológicos. Estou em busca de emprego para poder trazer sustento para mim e para a minha família."


Berço partido

Jorge teria nascido em uma família com boas condições financeiras. Mas seu pai foi assassinado quando ele ainda estava na barriga da mãe. "Mataram meu pai para roubar os caminhões que ele tinha. A minha mãe me botou no mundo e me largou. Com 15 dias de vida, meu padrinho me pegou para criar."

Ele viveu com o padrinho até os 7 anos, e depois ficou de casa em casa, "que nem cigano". Só conhece as histórias de como as coisas eram antes. "Meu pai tinha uma vida boa, uma família boa, ele transportava boi para corte, cortava lenha e transportava toras."

Da infância quebrada vieram dois sonhos. O primeiro era constituir uma família, que fez com que se casasse já aos 16 anos. Virou pai aos 22 anos, e hoje tem três filhos do primeiro casamento.

Com idades de 7, 12 e 14 anos, as crianças moram em Petrópolis com a mãe. Jorge diz que, com o desemprego, não tem conseguido enviar ajuda financeira.

"A minha filha vai fazer 13 anos neste mês e pela primeira vez estou com receio de não poder dar nada. Todo ano eu dou um bolinho, fazemos uma festinha, mas esse ano eu não tenho o que fazer", lamenta.

"Não sou nenhum político igual a esses aí... Vivo do trabalho mesmo", diz ele.

O segundo sonho era dirigir um caminhão e trilhar o caminho do pai que não conheceu. Recentemente, conseguiu trocar sua carteira de habilitação para dirigir carretas - "uma grande conquista". Mas os empregos na área minguaram.

"Deixei currículo em várias transportadoras, mas não está tendo vaga. Tem empresa com 30 carretas paradas. Imagina. Isso são 30 pais de família! Está tudo parado, o país está parado, não tem o que transportar."

Jorge passou no teste para trabalhar como motorista de ônibus no Rio - mas também não apareceram vagas por enquanto.

"Tenho que ficar no aguardo. O problema é que as contas, a barriga, a fome não esperam."


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

Artigo - Se tudo der certo, o Brasil será da molecada que trabalha



Por: Alexandre Versignassi*


A história bombou ontem: alunos do último ano do ensino médio num colégio gaúcho organizaram uma festa a fantasia com o tema “se tudo der errado”. E foram para a escola vestidos de atendente do McDonald’s, vendedor de sorvete, diarista.

A coisa serviu para ilustrar uma queixa antiga: a de que brasileiro despreza trabalhos produtivos. E despreza mesmo. Nos andares mais altos da nossa pirâmide social, o único trabalho aceitável é estágio de faculdade. Funções “de entrada” do mercado de trabalho (garçom, operador de telemarketing, vendedor de sapato) são tarefas a ser desempenhadas por escravos – no caso, pelo equivalente moderno a escravo: quem faz trabalhos braçais em troca de R$ 4o, R$ 5o por dia.

Nisso, temos um conflito com o que acontece nos países menos desiguais e mais ricos que o nosso. Nas nações que deram certo, você sabe, estudante trabalha de garçom, de vendedor de sapato, de chapeiro do McDonald’s. E não importa se o sujeito tem dinheiro na conta para comprar a loja do McDonald’s onde passa o dia fritando batata, ou ou se o cidadão é da família real – o rei da Holanda passou décadas de sua vida de príncipe trabalhando anonimamente como piloto da KLM (não que isso seja exatamente um “emprego de entrada”, mas vamos dar um desconto).

Mesmo assim, o fato é que os colégios de classe média alta não representam o Brasil real. Quase metade (44%) dos estudantes brasileiros de 15 anos trabalham antes ou depois das aulas, segundo um estudo do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Isso coloca a o Brasil bem à frente da média dos países ricos, que é de 23%. Nos EUA, onde até as filhas de Barack Obama trabalham de vez em quando, só 32% dos estudantes pegaram no batente no último ano. Ou seja: no Brasil de verdade, aquele fora do centro expandido de SP, da zona sul do Rio e das nossas outras bolhas sociais, a molecada trabalha, sim. E bem mais do que o senso comum leva a crer. Só pena que o nosso PIB não esteja nas mãos de quem precisa se virar desde cedo. Mas um dia vai estar. Se tudo der certo.


* Alexandre Versignassi é diretor de redação da SUPER e autor do livro "Crash - Uma Breve História da Economia", finalista do Prêmio Jabuti.


Fonte: Revista Superinteressante

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