domingo, 27 de maio de 2012

Artigo - Famílias por adoção: muito além do estereótipo

Por:  Lidia Dobrianskyj Weber


Vinte e cinco de maio é o Dia Nacional da Adoção, uma celebração conquistada por um combatente movimento da sociedade civil de 100 Grupos de Apoio à Adoção no país. O tema é importante: existem no Brasil cerca de 40 mil crianças e adolescentes em abrigos brasileiros esperando uma família, como prescreve a lei. Alguns esperam voltar para sua família de origem, a maioria deseja encontrar uma nova família e, embora novas leis tenham aperfeiçoado todo o sistema de adoção, ainda há muito chão pela frente e as crianças continuam fazendo aniversários nos abrigos. A História sempre esteve repleta de crianças abandonadas, porém sempre existiram pessoas interessadas em acolhê-las.

Existe uma divisão simbólica da adoção em duas etapas: na primeira, denominada de “adoção clássica”, buscava-se um bebê para resolver o problema de casais inférteis;  o olhar da segunda etapa, chamada de “adoção moderna”, é oposto: deve-se encontrar uma família para crianças e adolescentes que não vivem mais com seus genitores. Estamos na época do “melhor interesse da criança”.

Os países desenvolvidos raramente têm crianças vivendo em abrigos. Eles resolveram o problema de abandonos (como ainda ocorre com frequência assustadora por aqui), e crianças cujos genitores mostram-se incompetentes são facilmente adotadas ou colocadas em famílias acolhedoras. Em nosso país muito se fala que as pessoas querem adotar apenas bebês recém-nascidos, brancos e saudáveis, mas também é preciso falar do sistema que permite que cheguem bebês nos abrigos que só saem de lá com muito mais idade. Também é evidente que o número de adoções inter-étnicas, de crianças maiores e de grupos de irmãos tem aumentado em nosso país, também seguindo modelos de países desenvolvidos.
Recentemente iniciei uma pesquisa com um grande grupo de pessoas que estão muito além dos estereótipos. São pessoas que adotam crianças com necessidades especiais ou com grave problemas de saúde. Sim, há adoções de crianças com paralisia cerebral, com HIV, com ausência de membros, com síndrome de Down, autismo, entre outras. Pessoas especiais que fazem adoções notáveis.

Quando se espera um bebê genético, geralmente se diz que “não importa o sexo, desde que venha saudável”. Pois estes adotantes especiais, quando preenchem a ficha nos Juizados, não assinalam o item que limitaria sua “escolha” a uma criança sem nenhum problema de saúde. Os depoimentos revelam que estes adotantes têm um senso moral e espiritual tão grande que qualquer tipo de restrição não é correto, uma vez que com um filho genético isso não seria possível. Simplesmente aceitam as limitações da criança que transformam em filha; muitos adotaram mais de um filho especial e ainda auxiliam tantos outros a adotar. Este adotantes não querem nem ouvir alguém falando que isso é caridade ou que vão para o céu. Pela definição da ciência, este é, sim, um gesto altruísta, um amor agápico cujo ganho maior é daquele que recebe. 

Mas os pais especiais, rindo, não concordam: eles simplesmente dizem que queriam um filho e estão felizes e, para muitos, foi paixão à primeira vista. Melhor dizer amor à primeira vista; não pelo bebê mais bonito, mas pela criança que mais precisava deles. Uma mãe me disse que as pessoas em geral ficam sonhando que seu filho seja médico, advogado, que toque piano, jogue basquete, que ganhe muito dinheiro e, muitas vezes, os filhos não vão ser nada disso ou não será isso que os fará felizes. Ela se preocupa com as mínimas conquistas dos seus filhos e um sorriso de felicidade deles preenche seu mundo. Um dia de cada vez. Isso sim é amor verdadeiramente incondicional, o resto é conversa. Como dizem os jovens,  isso não é para fracos. No mínimo, todos nós precisamos refletir a respeito e aprender um pouco mais sobre a complexidade da vida.


Fonte: Portal da UnB

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