terça-feira, 15 de agosto de 2017

Escravidão é hoje 30 vezes mais lucrativa do que nos séculos 18 e 19, diz estudo


Um estudo realizado por um economista da Universidade de Harvard (EUA) indicou que a escravidão humana na atualidade é muito mais lucrativa do que àquela praticada nos séculos 18 e 19, com o uso de pessoas do Continente Africano.

Conduzido pelo norte-americano Siddharth Kara, o trabalho apontou que os exploradores de hoje do trabalho escravo lucram entre 25 e 30 vezes mais do que aqueles traficantes de pessoas dos séculos passados, em um negócio anual de US$ 150 bilhões.

Os detalhes do estudo foram publicados nesta segunda-feira pelo jornal britânico The Guardian e tomam por base o trabalho do economista para o livro Modern Slavery (Escravidão Moderna, em tradução livre), que será publicado nos EUA em outubro.

Kara buscou dados de 51 países e, ao longo de 15 anos, compilou a sua pesquisa. Ele ainda ouviu durante o trabalho mais de 5.000 vítimas do trabalho escravo.

“A escravidão hoje é mais rentável do que eu poderia ter imaginado”, afirmou o economista à publicação. Segundo os seus cálculos, o lucro gerado por um escravo ao seu explorador atinge US$ 3.978 (quase R$ 12,5 mil). Quando a exploração é sexual, o lucro é 10 vezes esse valor, podendo chegar a US$ 36 mil (R$ 112,6 mil).

O montante gerado com a escravidão moderna para fins sexuais corresponde à metade do total gerado pelo crime na atualidade, embora esse tipo de exploração responda por 5% das vítimas de trabalho escravo no século 21.

“A vida humana se tornou mais descartável do que nunca […]. A ineficiência da resposta global à escravidão moderna permite que essa prática continue existindo. A não ser que a escravidão humana seja entendida como uma forma cara e arriscada de exploração do trabalho alheio, essa realidade não vai mudar”, avaliou Kara.

De acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ao menos 21 milhões de pessoas pelo mundo são exploradas em algum modelo de escravidão moderna. Conflitos bélicos e fluxos migratórios possuem papel importante nesse processo, segundo especialistas.


Fonte: Jornal Sputnik News (Rússia)

Lucrativa, escravidão moderna está em crescendo na Europa, aponta pesquisa

Foto: Emilio Morenatti (AP Photo)

O risco da escravidão moderna cresceu em 20 dos 27 países que integram a União Europeia, segundo dados divulgados nesta semana por uma pesquisa intitulada Modern Slavery Index 2017 (Índice de Escravidão Moderna 2017, em tradução livre).

Produzido pela companhia de análise de risco Verisk Maplecroft, o levantamento apontou que os maiores riscos de aumento do trabalho escravo na Europa se encontram em cinco países: Itália, Romênia, Grécia, Bulgária e Chipre.

Coincidentemente, esses cinco países já são conhecidos como as principais rotas de entrada de imigrantes no Velho Continente. E esses fluxos migratórios são formados, majoritariamente, por pessoas vulneráveis e propensas a serem exploradas.
“A crise dos migrantes aumentou o risco de incidentes de escravidão aparecendo nas cadeias de fornecimento da empresa em toda a Europa”, afirmou Sam Haynes, analista sênior de direitos humanos da Verisk Maplecroft.

De acordo com Alexandra Channer, analista de Direitos Humanos da empresa responsável pela pesquisa, a vulnerabilidade dos imigrantes já começa do seu ponto de origem, “geralmente estão fugindo de países de violência e pobreza extrema”, disse ela à rede de TV norte-americana CNN.
“Geralmente eles [imigrantes] estão chegando nas mãos de contrabandistas de pessoas e, em seguida, rapidamente estão presos nas mãos de bandos de tráfico. As chances são de que, antes mesmo de entrar no local de trabalho, eles já estão em condições de escravidão moderna”, completou.

Fora da Europa, o pior cenário de queda no incide foi encontrado na Turquia, que recebe o maior contingente mundial de refugiados sírios. Na Ásia, países conhecidos pela farta oferta de mão de obra barata – Bangladesh, China, Índia, Indonésia, Malásia, Myanmar, Filipinas, e Tailândia também aparecem mal avaliados.

Já o top 10 do levantamento é liderado pela Coreia do Norte, nação que é seguida pelos seguintes países: Síria, Sudão do Sul, Iêmen, República Democrática do Congo, Sudão, Irã, Líbia, Eritréia e Turquemenistão.


O que é escravidão moderna

Definindo a escravidão moderna como um “termo guarda-chuva para escravidão, servidão, tráfico de pessoas e trabalho forçado ou compulsório”, o índice mede a força das leis, a eficácia da aplicação da lei e a gravidade das violações em 198 países pelo mundo.

O relatório apontou que 60% do total de países classificados na categoria “alto” ou “risco extremo”.

Segundo os responsáveis pelo trabalho, a ideia é que empresas usem o índice anual para identificar onde o risco da escravidão moderna é maior em suas operações comerciais e cadeias de suprimentos, para que eles possam orientar melhor seus recursos e esforços para evitar a exploração.

“Já não são apenas os hotspots de abastecimento tradicionais nas economias emergentes em que as empresas devem prestar atenção quando o risco avaliar seus fornecedores e as commodities que eles fornecem”, esclareceu Haynes.


Fonte: Jornal Sputnik News (Rússia)

Artigo - O brasileiro acha chique visitar Paris, Roma, Berlim, mas a Europa é, em essência, tudo o que a classe média odeia



Por: Ivana Ebel*


Tenho passado boas horas no Youtube, recentemente, acompanhando vídeos de brasileiros que foram morar em outros países. Tenho feito isso para entender mais da ferramenta, dos bordões, do que faz um canal ter sucesso ou não. Entenda como pesquisa de mercado, se quiser.

Nessa aventura pelo pensamento do brasileiro imigrante, todos falam de sua vida e, inevitavelmente, acabam comparando o que encontram quando voltam ao Brasil com o que vivenciam do lado de cá. Em todos os vídeos que abordam o tema, o principal espanto é o machismo, o racismo, a homofobia e o desrespeito pelo próximo no Brasil.

Viver em uma sociedade com valores diferentes faz com que brasileiros de todas as classes, credos e origens, que tiveram a chance de sair do país, consigam ver que os problemas do Brasil vão muito além da política e da economia, mas que têm uma direta conexão com ela. Aqui fora, fica mais evidente que o sonho de muito brasileiro de classe média pode ser morar na Europa, mas que o que a Europa representa (e se esforça para ser), em geral, é o resumo de tudo o que o brasileiro médio detesta. Não me ententa mal aqui: não se trata de colonialismo. Já explico.

Hoje, caí na besteira de ler os comentários em uma matéria que falava sobre a redução do bolsa família e teve quem chamou o momento político do país de “golpe de sorte”, por que “agora esses vagabundos vão ter que parar de fazer filho sustentados pelo dinheiro do cidadão de bem e terão que trabalhar”. No entanto, na Europa, os países com maior sucesso econômico são justo aqueles que têm os mais abrangentes planos de distribuição de renda.

Enquanto o brasileiro médio sonha com Paris, Roma, Berlim e o Bolsonaro, mais países europeus avançam em debates sobre a liberação das drogas e a regulamentação da prostituição, como já faz a Holanda. Aborto é um direito conquistado, debates de gênero são estimulados dentro das mais renomadas instituições de ensino. O estado é (quase sempre) laico. Ninguém tem armas e nem pensa em sua liberação. Serviços de limpeza doméstica tem que respeitar o valor mínimo por hora, assim como os profissionais que cuidam de crianças, dos jardins ou que trabalham em bares e restaurantes. Existe diferença social? Infelizmente existe, mas é muito, muito menor do que se vê no Brasil.

O ensino gratuito – ou financiado pelo governo em forma de empréstimo estudantil – permite que cada vez mais famílias tenham seus integrantes com diploma superior. No entanto, não é preciso ter uma profissão com formação universitária para conquistar uma vida digna. Mas é preciso saber que uma vida digna, por aqui, é para todos e não inclui escravos domésticos: cada um limpa seu banheiro, cuida do quintal e vai de transporte coletivo ou de bicicleta, usando ciclovias, de um lado para o outro. Por aqui, “piadas” racistas não são aceitas, igualdade de gênero é assunto sério, homofobia é crime. É perfeito? Não. E está longe de ser, especialmente em relação a etnias minoritárias, refugiados e parcelas mais vulneráveis da socidade. Mas não é tão ruim como no Brasil.

Foi isso que os youtubers perceberam. No geral, é isso que se sente: no velho mundo há uma certa maturidade de valores, há mais respeito, há acesso a renda mínima, saúde e educação. O estado é mais paternalista, quando se trata do bem estar social. E isso faz a diferança. A classe média brasileira, que chama bolsa família de bolsa esmola, que acredita no Bolsomito, aspira grandeza e acha chiquérrimo ir para Paris, Roma ou Berlim. Mas a “Europa Mágica” da viagem de férias é, em essência, tudo o que essa gente mais odeia dentro de casa.


* A autora é jornalista, doutora em Ciências Midiáticas e da Comunicação, professora universitária e pesquisadora.


Fonte: Blog Hoje Tem Textão

Obama enfrenta racistas da Virgínia com frase histórica de Mandela


Um grupo de supremacistas brancos se manifestou neste sábado em Charlottesville (Virgínia, Estados Unidos). Um dos racistas atropelou com seu carro um grupo de manifestantes antifascistas, matando uma mulher. Além disso, dois policiais que participavam das buscas ao agressor faleceram posteriormente na queda do seu helicóptero nos subúrbios da cidade.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reagiu com uma condenação genérica da violência cometida por "muitas partes", além de equiparar os neonazistas ao resto dos manifestantes. Já seu antecessor no cargo, Barack Obama, abordou a situação de outra forma. Tuitou uma das frases mais famosas do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela. Em poucas horas, o tuíte principal com a citação já foi reproduzido mais de 450.000 vezes. Abaixo dos tuítes há a tradução ao português.



“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, por sua origem ou sua religião. As pessoas têm que aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar também se pode ensiná-las a amar. O amor chega mais naturalmente ao coração humano que o seu contrário.”

Essa frase de Mandela procede da sua autobiografia Long Walk to Freedom, traduzida ao português como Um Longo Caminho para a Liberdade (editora Planeta). Segundo o site da Fundação Nelson Mandela, o líder da luta contra o apartheid começou a escrever essas memórias na prisão de Robben Island em 1976, onde se encontrava preso por causa da sua atividade contra o regime de segregação racial que durou de 1949 a 1992. Ele redigiu essas memórias por sugestão do também ativista Ahmed Kathrada, com a intenção de que outro companheiro, Mac Maharaj, tirasse o texto da penitenciária.

Escrevia cerca de 10 páginas por noite, e as entregava a outros presos políticos para que as revisassem e escondessem. “Depois, foi transcrito com letras pequenas, para que ocupasse o menor espaço possível. Foi escondido em um compartimento secreto da prisão”, informa a Fundação Mandela. A versão original foi escondida na biblioteca, com a ajuda de outro prisioneiro.

Depois de muitas idas e vindas, Maharaj escapou das autoridades sul-africanas e levou o manuscrito a Londres. Enquanto isso, os funcionários de Robben Island encontraram uma versão escondida e complicaram ainda mais a situação do encarcerado Mandela. Só vários anos depois, já livre, ele terminaria o texto. Ao todo, Mandela esteve na prisão durante 27 anos, de 1963 a 1990. Em dezembro de 1994, publicou o livro que inclui a frase compartilhada por Obama no Twitter.


Mais reações em redes sociais

Além do tuíte de Obama, houve várias outras reações ao atentado de Charlottesville nas redes sociais. Uma das mais destacadas é outra citação, esta de John Fitzgerald Kennedy, relembrada pelo escritor Larry Sabato. Com as palavras do ex-presidente norte-americano ele aparentemente critica a equidistância de Trump em relação a todos os manifestantes. A frase de Kennedy, na verdade, parafraseava outra citação famosa, do italiano Dante Alighieri.

Essa série de postagens do Twitter, em que um usuário desmonta passo a passo os argumentos dos supremacistas brancos, também teve grande repercussão na rede social. “Ninguém tenta legislar para retirar seu próprio direito de se casar, nunca escravizaram seus avós, ninguém encarcerou seus pais, não são proibidos de viajar por causa da sua religião, e suas igrejas nunca foram queimadas....”, afirma Sabato.

Tudo isso vai depois da seguinte frase: “Imaginem se estas pessoas enfrentassem a opressão".

"Minha cita favorita de JFK: 'Os locais mais calorosos do inferno estão reservados para aqueles que, em tempos de grandes crises morais, se mantêm na neutralidade' "



Fonte: Jornal El País (Espanha)

Falta de Q.I.? Como 'quem indica' baixo trava ascensão de negros

Marisa Bastos Teixeira em reunião na agência governamental onde trabalha; ela entrou no mercado de trabalho graças às conexões iniciadas por uma tia costureira


Gerente de comunicação de uma agência governamental em Brasília, Marisa Bastos Teixeira costuma participar de reuniões de diretoria da empresa e ser a única executiva negra entre seus pares. Para ela, foi assim desde o início da carreira, nos anos 1990.

"Como executiva no Brasil tenho a impressão de estar trabalhando na Suécia ou Dinamarca. Nas empresas, os chefes e diretores costumam ser brancos, e diversidade, quando há, você só vê em escalões mais baixos", afirma.

Marisa é uma das exceções que compõem as estatísticas do mundo corporativo no Brasil. Pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Instituto Ethos lançada em 2016 aponta que somente 4,7% dos cargos executivos são ocupados por profissionais negros, contra 94,2% de brancos.

A disparidade existe em outros escalões. Entre funcionários acima apenas de estagiários e trainees, o número de brancos é de 62,8% e de negros, 35,7%. Já 72,2% dos cargos de supervisão são ocupados por profissionais brancosos, e 25,9% por negros.

Esses números estão distantes da realidade da sociedade brasileira, em que 55,4% das pessoas (ou 113 milhões de brasileiros) se declararam pretos ou pardos, segundo a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

Muito se fala do papel do racismo ou da desigualdade na educação para justificar essa disparidade. Porém, especialistas apontam que a ausência de uma rede de contatos - formada principalmente por conhecidos em posição de influência - pode ser determinante para que uma pessoa negra consiga do primeiro emprego a uma promoção.

É o tio que indica para um estágio, o amigo da escola que hoje é chefe e ajuda seu filho ou a informação sobre uma vaga de diretor da multinacional que só chegou a você naquele bate-papo com um ex-colega de MBA. São relações de ajuda mútua que podem beneficiar gerações.

"Os negros têm menos acesso a redes de contato ou a um capital social influente para subirem na carreira. E em uma sociedade como a nossa isso é fundamental para uma indicação a um posto de comando", afirma Emerson Rocha, doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB).


Atalho para o topo

Na prática, significa dizer que negros e brancos com a mesma experiência podem ter desempenhos diferentes na hora de subir na carreira. Quem tem um bom capital social consegue mais rápido.

Foi assim com a gerente Marisa. Ela lembra que começou ainda na infância sua rede de contatos com pessoas que poderiam influenciar sua carreira de forma positiva.

Filha de mãe costureira e pai pintor de carros, ela cresceu entre Humaitá e Glória, bairros de classe média do Rio de Janeiro. Os pais optaram em morar na zona sul, em uma quitinete, para ficarem mais perto dos clientes.

Marisa passou a ter crianças de classe média como vizinhos e colegas de escola. "Sempre convivi com pessoas de nível social mais alto do que o meu. E o curioso é que eu tinha a exata dimensão do fosso que separava pessoas brancas de negras. Na zona sul, eu habitava um mundo branco. Mas ao subir o morro para os ensaios da escola de samba São Clemente, pertinho dali, eu me encontrava com muitas pessoas como eu", relembra. "E a realidade delas era muito diferente."

Formada em uma universidade privada em Botafogo, Marisa conseguiu o primeiro emprego como jornalista graças a uma tia costureira que tinha entre seus clientes pessoas influentes da alta sociedade carioca.

Um dia, a tia chamou Marisa para ir ao lançamento de um livro. Foi a contragosto, mas lá foi apresentada a várias personalidades, e disso surgiu a vaga de estágio em uma rádio. Marisa saiu de lá 13 anos depois, como repórter especial e coordenadora de cobertura de eventos especiais, como o carnaval na Sapucaí.

"Depois dessa experiência, saí com um networking poderoso. Fui indicada para trabalhar como jornalista e apresentadora de TV, dividi bancada com comunicadores famosos, fui gerente em várias empresas públicas e privadas, tive uma empresa de comunicação com uma vasta carteira de clientes, trabalhei no comitê de candidatura dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio e lá conheci o executivo que viria a me indicar para a vaga que ocupo hoje", conta.

"Com isso, já são vários anos como coordenadora, gestora ou gerente. Além de minha capacidade técnica, acredito que estar perto das pessoas certas e ser indicada por elas foi fundamental para que eu chegasse aqui."


Capital social

O sociólogo Emerson Rocha afirma que para ser bem-sucedido na carreira, o indivíduo depende de capitais pessoais, como o econômico, o cultural e o social.

"O econômico refere-se ao dinheiro que você dispõe para custear sua sobrevivência e educação. O cultural vem da origem da família e o quanto ela influencia o próprio indivíduo - por exemplo, o fato de os pais terem curso superior aumenta a chance de seu filho também vir a ter", diz.

"Conviver com colegas e parentes na mesma situação também favorece. Agora, quando se é pobre, é bem provável que você conheça mais pessoas pobres, fazendo seu capital social ficar restrito a esse grupo. Assim, ao não ter uma rede social de recursos para acessar, você acaba ficando distante de boas oportunidades, como ocupar um cargo de gerência."

Para incrementar o capital social, existem meios democráticos, como o ingresso em universidades públicas, onde é possível "travar contato e conhecimento com uma série de pessoas de classe média, média alta e até alta, e isso é uma boa oportunidade para formar capital social através dessas interações", afirma Rocha.

Capital social escasso afeta negros e brancos. A diferença, para Rocha, é que, em primeiro lugar, há muito mais negros entre os pobres. Numericamente, esses são mais afetados, pois representam três quartos da população menos favorecida, segundo o Instituto Econômico de Pesquisa Aplicada (Ipea). Ou seja, em cada quatro pobres, três são negros.

"Razões históricas como a escravidão explicam esse fosso. Os negros de hoje têm como antepassados gerações de pessoas que foram legal e institucionalmente discriminadas. Como se pode competir com o capital social de um branco que não passou por isso?", questiona.

Outro motivo, segundo o pesquisador, é que há fatores subjetivos cruciais para a formação de uma rede de capital social. Por exemplo, quando uma pessoa se aproxima de alguém, muitas vezes especula quais são as amizades - e oportunidades - que ela pode obter ao se conectar àquela pessoa.

"É a base da lógica do networking. E, por já chegar ao mercado de trabalho com pouco capital social, o negro fica em grande desvantagem para fortalecer sua rede. O preconceito sugere que, com um negro, se está diante de alguém com baixo capital social", afirma Rocha.


Inclusão

Para aumentar o número de executivos negros em seus quadros e, por consequência, ampliar o capital social de seus funcionários, cabe às empresas ficarem mais atentas à falta de diversidade, implantando políticas de maior inclusão de profissionais negros.

A pesquisa do BID e do Ethos mostra que as organizações entrevistadas buscam promover a inclusão de diversos grupos em desvantagem. Porém, enquanto 41% têm políticas para pessoas com deficiência, 28% incluem as mulheres e apenas 8% têm ações afirmativas para negros.

"A grande desculpa das empresas é dizer que não conseguem equilibrar a diversidade porque não se acha negros no LinkedIn formados nas melhores universidades do país ou que falem inglês", afirma Alexandra Loras, ex-consulesa da França e hoje CEO da Protagonizo, empresa de headhunting especializada em colocar no mercado profissionais negros com altas aptidões.

A Protagonizo reúne o cadastro de mais de 2 mil profissionais negros com nível superior e pós-graduação, formados nas melhores universidades do país e no exterior, e que falam até quatro idiomas.

"Percebi que esses talentos negros com alto potencial sempre existiram. Só que as empresas não conseguem acessá-los porque dentro de seus quadros de RH têm pessoas brancas que não conhecem as ações e movimentos de pessoas negras. E mais: as pesquisas mostram que é muito natural e visceral que um branco escolha outro branco que, por exemplo, tenha estudado na mesma universidade de prestígio. Daí a ideia de me tornar headhunter para aumentar a presença da participação de negros no mercado de trabalho no Brasil", afirma Loras.

"Até hoje as empresas só tiveram homens brancos vindos de universidades de elite exercendo cargos de executivos. É claro que eles não conseguem falar com o verdadeiro público brasileiro, que é formado em sua maioria por negros e mulheres. E isso é uma grande perda de dinheiro", explica.

A jornalista soteropolitana Monique Evelle, que aos 22 anos já foi eleita como uma das 25 mulheres negras mais influentes da internet, é outra empreendedora que viu na diversidade a chance de aumentar o número de profissionais negros altamente qualificados no mercado de trabalho.

Idealizadora do projeto Desabafo e dona da Evelle Consultoria, ela ajuda empresas que desejam não só diversificar seus quadros, como também implantar a cultura de direitos humanos. Para ela, é preciso desconstruir o imaginário social que acredita que apenas uma única vaga ocupada por um negro em algum lugar de destaque prova que o racismo no Brasil não existe.

"A gente não está no mercado apenas para brigar por inclusão, porque, ao falar só disso, a gente continuará exercendo cargos subalternos", opina.

"Nossa tentativa é fazer com que pessoas negras exerçam cargos de liderança e de gestão de forma proporcional às pessoas brancas. Não é porque uma organização tem entre seus executivos um único negro ou gay ou mulher que significa que esteja fazendo diversidade ou sendo amiga das minorias. É preciso haver proporcionalidade. Isso, sim, faz a grande diferença."

Emerson Rocha vai além. "É claro que abrir-se para a diversidade não é uma questão de contratar uma pessoa desqualificada só porque é negra. Não é isso. É você contratar uma pessoa negra qualificada para aquele cargo. Com certeza, ela virá com gana de vencer, de agregar e, melhor, de produzir novos capitais sociais que podem ajudar na entrada de mais profissionais negros entre cargos de gerência no Brasil."


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

Artigo - 5 jeitos de desconstruir a criação machista dos filhos

Jovens pais leem histórias para e com seus filhos.


Por: Vivian Jordão*


"A mulher pode ser definida como um homem inferior."

"Se o homem dissesse uma coisa e a mulher outra, a vida seria uma desgraça. Só o homem deve dizer algo, e a mulher se dispor a fazê-lo."

"Além de casar, o que a mulher mais gosta é de ser enganada de vez em quando."

Frases como essas são proferidas o tempo inteiro pelos homens da nossa sociedade. Você poderia dizer que são homens ignorantes, sem estudo, certo? Errado. A primeira frase foi proferida por Aristóteles, filósofo grego e um dos maiores pensadores de todos os tempos. Então você poderia dizer que são frases ditas por homens afastados da espiritualidade, certo? Errado. O autor da segunda frase é ninguém menos do que Mahatma Gandhi. Então são frases ditas apenas por homens, ponto. Certo? Errado. A última frase pertence à autora Jane Austen.

Comportamentos machistas são fruto da construção da identidade feminina e masculina ao longo da História da humanidade. Especialista em saúde da mulher, a professora da USP Rosa Maria Fonseca, explica em artigo esse processo:
"Ao que indicam os estudos sociológicos e antropológicos, foi na sociedade de caça aos grandes animais que se iniciou a supremacia masculina."

Isso porque enquanto os homens saíam para caçar, as mulheres ficavam "em casa" cuidando dos filhos.

Fonseca ainda destaca que "é provável que a dominação masculina tenha tido uma origem lenta e gradual e tenha transformado as relações entre homens e mulheres à medida que a divisão sexual do trabalho os separava cada vez mais".

Hoje em dia, muitos pais e mães reforçam comportamentos machistas na criação de seus filhos, repetindo o modo como foram educados. Estimulam hábitos e pronunciam frases que vão naturalizando nas crianças a repetição desse padrão.

"Isso é coisa de menininha", "esse aí vai dar trabalho, vai ser pegador", "menina tem que ajudar a mãe a cuidar da casa" e muitas outras frases que já estão enraizadas na nossa cultura, fazem parte do cotidiano de muitas crianças, que vão introjetando e repetindo essa conduta.

Em consequência dessas atitudes dos pais, muitos meninos crescem achando normal objetificar mulheres e muitas meninas crescem achando normal serem objetificadas. A naturalização desse comportamento machista, autorizado e ensinado pelos próprios pais, é um dos principais motivadores da violência contra a mulher. De acordo com o Mapa da Violência 2015, foram 4.762 mortes de mulheres no Brasil, em 2013, o que equivale a 13 homicídios diários, pelo simples fato de ser mulher.

A Organização Mundial da Saúde coloca o Brasil em 5°lugar entre os países que mais matam mulheres, com uma taxa de 4,8 homicídios por 100 mil mulheres. Para protegê-las dessas estatísticas, autoridades vêm desenvolvendo campanhas e políticas públicas. Em março de 2015 foi sancionada a Lei do Feminicídio. É considerado feminicídio o assassinato em que há violência doméstica e familiar ou quando há evidência de menosprezo ou discriminação à condição de mulher, caracterizando crime por razões de condição do sexo feminino.

A Plan Brasil, ONG que defende os direitos das crianças, jovens e adolescentes, realizou uma pesquisa com 1.771 meninas de seis a 14 anos em todas as regiões do Brasil e descobriu a disparidade entre a distribuição das tarefas domésticas entre meninos e meninas. Enquanto 81,4% das meninas arrumam suas camas, apenas 11,6% dos meninos realizam essa tarefa. Entre as meninas, 76,8% lavam a louça e 65,6% limpam a casa. Já entre os meninos, 12,5% lavam a louça e 11,4% limpam a casa. Outra tarefa predominantemente destinada às meninas é a de cuidar dos seus irmãos: 34,6% são responsáveis por essa função, contra 10% dos meninos.

Para confrontar esses padrões, o HuffPost Brasil lista para os pais cinco modos de desconstruir a criação machista das crianças:


1. Órgão genital não lava louça

A pedagoga e educadora sexual Caroline Arcari enfatiza que "não precisa do órgão genital para fazer tarefas domésticas". Ela desenvolve projetos para crianças e adolescentes com o objetivo de desconstruir o estereótipo da princesa submissa e do herói agressivo e dominador. Arcari enfatiza a importância de não segmentar atividades e brincadeiras entre "coisas de menino" e "coisas de menina". Segundo a pedagoga, é importante deixar que os meninos desenvolvam empatia, sensibilidade e permiti-los chorar, assim como deixar a menina jogar futebol, porque fortifica a personalidade delas em direção à igualdade.

2. Ele pode brincar de boneca, sim

Arcari ressalta que "muitas vezes, os meninos têm vontade de brincar com boneca, mas não brincam, porque isso seria reprovado pelo grupo de colegas da mesma faixa etária e também pelos adultos. Então, ao longo dos anos, eles vão tomando esses espaços, que não são espaços saudáveis".

Já a blogueira Pâmela Ghilardi, do blog Fofoca de Mãe, ensina seu filho Luca, de 5 anos, a brincar e realizar tarefas sem distinção de sexo. "O meu filho brinca de Barbie e de Hello Kitty, assim como ele brinca de super-herói e carrinho. Outro dia, ele queria uma cozinha de brinquedo e só tinha na cor rosa. O pai falou que não ia deixar e tive que convencê-lo", conta.

Conforme explica o psicólogo infantil Ricardo Gonzaga, "as crianças só vêem um brinquedo, os adultos que atribuem significado de diferenciação das brincadeiras por sexo. As crianças não vêem maldade nenhuma no brincar; elas não têm malícia". Por sua vez, os adultos estão o tempo todo repreendendo as crianças por explorarem brinquedos que não consideram apropriados para seu sexo.

Pâmela enfrenta situações do dia a dia em que precisa explicar para os adultos sobre o jeito de educar seu filho. Numa festa de aniversário, Luca juntou-se às amigas gêmeas para brincar de boneca, quando sua madrinha disse que não podia deixar, que menino tem que brincar de carrinho. "Eu disse: estou ensinando ele a cuidar de um bebê no futuro, a ser um bom pai, não tem nada de errado nisso".

3. A liberdade de experimentar o mundo

Pâmela é uma mãe na contramão da educação machista normalmente praticada pelos pais. Ela sempre se depara com situações em que seu filho quer fazer "coisa de menina". E ela deixa.

"Esses dias, eu estava me maquiando e ele me pediu para passar batom... Eu deixei, mas disse que só um pouquinho e só de vez em quando, porque não acho bacana criança usar maquiagem, mas não por achar que é coisa de menina".

Mas e se quando ele for adulto ele quiser passar batom? "Se quando ele for adulto, ele quiser usar batom ou maquiagem, não tem problema nenhum. O futuro dele, ele que vai decidir, quando ele for maior".

4. As 'coisas de menina' ou 'coisas de menino'

Muitos pais acreditam que permitir os meninos fazerem 'coisas de menina' ou meninas fazerem 'coisas de menino', pode tornar seus filhos homossexuais. O psicólogo Ricardo Gonzaga explica que isso não acontece: "As brincadeiras, tarefas ou estilo de roupa não influenciam em nada na sexualidade das crianças. Ou elas são homossexuais ou não são. E isso não é devido a nenhuma interferência externa".

Quando Pâmela não permite que Luca realize alguma atividade feminina, não é por motivo de machismo:
"Estava pintando as minhas unhas e ele pediu para pintar as dele. Ao invés de eu dizer 'não pode, porque isso é coisa de menina', eu disse 'não pode, porque isso não é coisa de criança'. Eu tirei do lado machista e coloquei para o lado de ser coisa de adulto, porque é nisso que acredito,"

5. Amor e violência não andam juntos

É preciso ficar atento à criação dos filhos, tanto em casa, quanto na escola. Por mais que os pais sejam bem intencionados, pode escapar o reforço de algum padrão machista, como aconteceu com a pedagoga Arcari: "Eu mesma já falei para uma aluna minha, que veio reclamar do colega, que quando o menino puxa o cabelo é porque está apaixonado. Quando a gente fala isso para a menina, a gente está ensinando que violência e amor podem andar juntos".

Menina pode brincar de luta, de carrinho e de super-herói. Menino pode brincar de boneca, pode colocar vestido e ver filme de princesa. Isso torna seus filhos humanos e lhes ensina a ter empatia com qualquer pessoa, independentemente do gênero dela.


* Vivian Jordão é Graduada em Letras, formanda em Jornalismo e estagiária do HuffPost Brasil.


Fonte: Jornal HuffPost Brasil - The Huffington Post (EUA)

A justiça fecha os olhos diante do drama do aborto na América Latina

Foto: Alberto Ortiz (EFE)
Manifestantes em Buenos Aires pedem a libertação de Belén, que em 2016 estava presa havia mais de dois anos por abortar.


O aborto continua sendo um dos grandes tabus na América Latina. A interrupção da gravidez é tipificada como crime em quase todas as legislações nacionais, e sua recente despenalização no Chile sob três hipóteses (risco de vida para a gestante, inviabilidade fetal e estupro) não reabriu o debate em outros países. Mas o abismo entre a lei e a realidade continua dramaticamente presente. Na região do mundo com maior percentagem de gestações não planejadas (56%), segundo a ONU, a cada ano centenas de milhares de mulheres abortam de forma clandestina, e as complicações decorrentes dessas intervenções representam uma das principais causas de mortalidade materna – 67 mortes por cada 100.000 nascidos vivos, segundo a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, um órgão da ONU).

O número de abortos ilegais anuais só pode ser estimado a partir de dados extraoficiais, dada a ausência de estatísticas governamentais, mas claramente superam os dois milhões, somando apenas os dados do Brasil (um milhão de abortos, pelo menos), Argentina (500.000), Colômbia (400.000) e Chile (160.000).

A América Latina domina a lista mundial de países onde vigora a proibição absoluta de abortar em qualquer hipótese – casos da Nicarágua, Honduras, El Salvador e República Dominicana, além do Haiti e três pequenos Estados europeus (Malta, Andorra e o Vaticano). No extremo oposto se encontram aqueles onde a prática é legal: Uruguai, Cuba, Porto Rico e a capital do México. As demais nações proíbem a interrupção da gestação, mas com uma despenalização parcial. As três exceções mais generalizadas são as condições agora aprovadas no Chile e que equipararam o país a lei brasileira: se a gravidez colocar em risco a vida ou a saúde da mulher, se for fruto de violência sexual e se o feto for inviável. Entretanto, são frequentes os obstáculos burocráticos que levam a superar os prazos legais que todas as normativas estabelecem (o número de semanas de gestação) e impedem que as mulheres exerçam seu direito ao aborto legal. Um caso paradigmático é o da Colômbia, onde essas barreiras vão da recusa a prestar atendimento à prática de encaminhar a grávida para vários centros de saúde, a exigência do pronunciamento de juntas médicas e a possibilidade de os médicos alegarem objeção de consciência. O mesmo ocorre em partes do México, Brasil e Argentina.


Mãe aos 11 anos

A situação piora nos países onde o aborto só é permitido se a gravidez ameaçar a vida da mãe, como no Paraguai, uma das nações mais católicas do continente. Em 2015, o caso de Mainumby, de 10 anos, que ficou grávida ao ser estuprada por seu padrasto, desatou uma campanha internacional para que ela pudesse abortar. Foi em vão. A Justiça paraguaia rejeitou essa possibilidade, e a menina se tornou mãe aos 11 anos.

Nos países centro-americanos citados, o aborto não é uma opção nem sequer quando a mulher pode morrer ou foi estuprada. O castigo são elevadas penas de prisão. Em 2012, um tribunal salvadorenho condenou María Teresa Rivera a 40 anos de reclusão por homicídio qualificado, depois de ela abortar na 21ª semana de gestação. Sua sogra a encontrou quase inconsciente, com uma grande hemorragia. O hospital aonde foi levada a denunciou. Seu caso foi muito criticado por organismos de direitos humanos, e em 2016 um tribunal anulou a sentença.

Também na Argentina, a pressão dos movimentos femininos foi crucial para a libertação de Belén, uma jovem que passou quase três anos presa após sofrer um aborto espontâneo em Tucumán, uma das províncias mais conservadoras do país. Embora a Argentina tenha sido pioneira na região em outras conquistas sociais, como casamento homossexual, os sucessivos projetos de legalização apresentados no seu Congresso nos últimos anos foram arquivados. Na semana passada, o aborto entrou na campanha para a eleição legislativa de outubro, sendo taxativamente rejeitado por dois candidatos importantes.

Todas essas proibições e entraves não dissuadem as latino-americanas. Na maioria de nações existe um mercado negro de drogas abortivas e redes de clínicas clandestinas. O medo da Justiça se soma ao da condenação social e da estigmatização. O avanço do Chile é só um pequeno passo num caminho cheio de obstáculos.


Congresso conservador ameaça conquistas no Brasil

O Supremo Tribunal Federal decidiu no final de 2016 que praticar aborto até os três primeiros meses da gestação não é crime. A decisão foi dada a partir de um caso específico, suspendendo a prisão preventiva de cinco pessoas que trabalhavam em uma clínica clandestina de aborto no Rio de Janeiro. Um pequeno passo, simbólico e significativo, para os movimentos feministas que há décadas lutam para fazer valer esse direito no Brasil.

A medida não ficou sem resposta. Na Câmara dos Deputados, parlamentares conservadores se mobilizam para tentar rever a decisão do Supremo. Na manga estão vários projetos que têm como objetivo dificultar o acesso das mulheres aos direitos já estabelecidos, como o Projeto de Lei 5069/13, de autoria do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e outros 12 deputados, que prevê que uma vítima de abuso sexual ou estupro terá que realizar um boletim de ocorrência e fazer um exame de corpo de delito para, só então, ser atendida em uma unidade de saúde. A proposta prevê ainda transformar o aborto e crime hediondo, na contramão de pesquisas mundiais que apontam, porém, que a maioria das mulheres que sofreram abuso não dão queixa na delegacia, por, dentre outras razões, medo do agressor.

O PL 1.465/2013, de autoria da deputada Celina Leão (PPS-DF), determina a apresentação de um "programa de orientação sobre os métodos utilizados para a realização do aborto e suas consequências" à mulher que recorresse ao sistema público de saúde do DF para interromper gravidez decorrente de estupro. Já o PL do Senado (PLS) 461/2016, do senador Pastor Valadares (PDT-RO) altera o Código Penal para considerar aborto a interrupção da vida intrauterina em qualquer estágio da gestação.


Fonte: Jornal El País (Espanha)

10% dos deputados atuais não seriam eleitos no 'distritão'; PMDB seria beneficiado


10% dos deputados atuais não seriam eleitos no "distritão"



A comissão da reforma política aprovou na madrugada desta quinta-feira o sistema do "distritão". Se a regra já estivesse em vigor nas últimas eleições, 45 deputados atuais não teriam sido eleitos. O PMDB e o PSD seriam os maiores beneficiados, com seis deputados a mais cada.

A reforma política se tornou prioridade para os caciques dos principais partidos políticos. E um dos pontos é a adoção do sistema do "distritão" nas eleições de 2018. Mas se este sistema já estivesse em vigor nas eleições de 2014, quase 10% dos atuais integrantes da Câmara dos Deputados seriam diferentes: 45 dos 513 deputados atuais não teriam sido eleitos.

O PMDB e o PSD seriam os principais partidos beneficiados, com 6 deputados a mais cada. Para o PT, o saldo seria de 3 vagas a mais. PP e PSDB continuariam com o mesmo número de cadeiras, e o PR perderia 2 deputados.

O sistema do "distritão" iguala a disputa dos deputados à dos senadores: os mais votados no Estado são eleitos, independente do partido. A vantagem é acabar com o "efeito Tiririca", em que um nome bem votado acaba elegendo outros, de pouca relevância.

Na eleição "proporcional", como acontece hoje, os votos de cada coligação de partidos são somados e divididos por um número, chamado quociente eleitoral. O resultado determina o número de cadeiras que a coligação terá. Assim, um candidato com poucos votos dentro de uma coligação forte pode acabar eleito. Mesmo em detrimento de outro, mais votado, que faça parte de uma coligação menor.

O ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira (eleito pelo PTB-RS), está na lista dos que ficariam de fora se o "distritão" estivesse em vigor em 2014. Outro que não teria os votos necessários é Beto Mansur (PRB-SP), um dos principais articuladores de Michel Temer no Congresso.

Mansur é contra a adoção do "distritão". Para ele, a mudança de sistema agora só interessa a alguns partidos grandes, como o PMDB e o PSDB.

"O 'distritão' transforma a eleição de deputado em uma disputa majoritária. E numa disputa dessas, importa muito estar junto de um candidato a governador forte, que possa pedir votos para você. PMDB e PSDB têm essa perspectiva, de lançar candidatos competitivos aos governos estaduais. Por isso defendem essa mudança", diz Mansur.

Por outro lado, teria conquistado uma vaga de titular a atual secretária de Políticas para Mulheres de Temer, Fátima Pelaes. Ela concorreu pelo PMDB no Amapá e teve 17,5 mil votos, mas acabou como suplente.

O jornalista esportivo Jorge Kajuru também teria se tornado deputado com os 106,2 mil votos que obteve como candidato pelo PRP de Goiás. Ele não foi eleito, nem para suplente.

Também teriam conquistado uma vaga de titular o ex-ministro da Agricultura Reinhold Stephanes (PSD-PR) e o advogado Wadih Damous (PT-RJ), um dos principais defensores do ex-presidente Lula. Ambos foram eleitos suplentes, e são deputados hoje porque os titulares se licenciaram do cargo. Ao todo, há hoje 14 deputados nessa situação.

O presidente da comissão especial da reforma política, deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), acredita que é possível aprovar a reforma política no plenário da Câmara nos próximos 15 dias. E que o "distritão" deve passar, mesmo que como uma regra de transição para as eleições de 2022.

"Os partidos estão conversando. Vão perceber que o 'distritão' é o melhor para eles. Reduz o número de candidatos e, por consequência, o dinheiro gasto. É uma alternativa a ter que aumentar o financiamento público das campanhas", diz Lúcio Vieira Lima. "Ademais, não se pode fazer reforma política pensando nisso, em quem entraria e quem ficaria de fora", diz Lúcio.

O cientista político Cláudio Couto lembra que os partidos e candidatos teriam adotado outras estratégias em 2014, caso o sistema eleitoral fosse outro.

"A projeção [feita pela reportagem] com base nas eleições de 2014 é até útil para entender tendências. Mas, se a regra do jogo fosse outra, os atores teriam agido de forma diferente. E o resultado possivelmente teria sido diferente do projetado", diz ele, que é professor da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo.

Couto discorda ainda da hipótese de que o "distritão" diminuirá o custo das campanhas. "A competição ficará mais acirrada entre os candidatos. Os gastos terão de crescer para enfrentar a disputa", diz ele.

O "distritão" é usado em poucos países do mundo. Hoje, só adotam este método o Afeganistão, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e Vanuatu, além das Ilhas Pitcairn (um território britânico no Pacífico).

O principal ponto negativo do "distritão" é o desperdício de votos, pois votos dados a candidatos não eleitos deixam de influenciar o resultado. Além disso, o sistema beneficia os atuais ocupantes do cargo, dificultando a renovação no Legislativo.


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

I Seminário de Prevenção ao Assédio Moral no Trabalho

O Combate ao Assédio Moral no Trabalho será debatido em seminário organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores da Fundação da Universidade de Brasília (Sintfub), no dia 15 de agosto, no auditório 3 - Faculdade de Saúde da Universidade de Brasília (UnB).

O evento contará com palestras da professora Drª Ana Magnólia Mendes do Departamento de Psicodinâmica do Trabalho – Instituto de Psicologia da UnB, do psicólogo Arthur Lobato e do diretor de Saúde, Segurança e Qualidade de Vida no Trabalho (DSQVT/DGP) – UnB, professor Dr. Nilton Farias. Além da participação da Reitora da UnB, professora Márcia Abrahão, da deputada federal Erica Kokay, da diretora da Faculdade de Ciências da Saúde – UnB, professora Maria Fátima Sousa e do coordenador de Saúde e Seguridade Social, Tarcílio Dias.

De acordo com a Coordenação Geral do Sintfub, o objetivo deste debate é combater o assédio moral no trabalho e alertar sobre suas consequências na saúde física e mental da classe trabalhadora. “Cada vez mais casos de assédio moral têm ocorrido na esfera pública, pois na busca desenfreada por resultados e benefícios para si, o gestor ou chefe imediato acaba esquecendo que existe um trabalhador (a) que é munido (a) de sentimentos e direitos a serem respeitados. Situações humilhantes e constrangedoras, de forma repetitiva e prolongada, têm acometido a saúde dos nossos servidores e das nossas servidoras. Precisamos explicar para nossa categoria os diversos tipos de assédio, como acontecem e o que eles e elas podem fazer para denunciarem estes abusos”.

Segundo cartilha publicada pelo Ministério Público do Trabalho sobre o tema, “o assédio moral se caracteriza por pequenas agressões que, tomadas isoladamente, podem ser consideradas pouco graves, mas, quando praticadas de maneira sistemática, tornam-se destrutivas. A humilhação repetitiva e de longa duração acaba interferindo na vida do empregado de modo direto, comprometendo sua identidade, sua dignidade e suas relações afetivas e sociais. Isso causa graves danos à saúde física e psicológica, pode evoluir para uma incapacidade laborativa e até mesmo para a morte, constituindo um risco invisível, mas real”.

O novo Código Penal Brasileiro em seu Art. 136-A institui que o assédio moral no trabalho é crime, com pena de detenção de um a dois anos. “Depreciar, de qualquer forma, e reiteradamente, a imagem ou o desempenho de servidor público ou empregado, em razão de subordinação hierárquica funcional ou laboral, sem justa causa, ou tratá-lo com rigor excessivo, colocando em risco ou afetando sua saúde física ou psíquica”. E o 146 – A tem pena de detenção de três meses a um ano e multa. “Desqualificar, reiteradamente, por meio de palavras, gestos ou atitudes, a autoestima, a segurança ou a imagem do servidor público ou empregado em razão de vínculo hierárquico funcional ou laboral”.

Algumas condutas podem ser observadas pelos trabalhadores e trabalhadoras caracterizarem se estão sendo assediados (as) moralmente, como: ameaças constantes que forcem a um pedido de demissão; retirar material que dificulte à execução da tarefa, impedindo o trabalho; divulgar boatos sobre a moral do trabalhador e da trabalhadora; exigir que o (a) trabalhador (a) faça horários fora da jornada de trabalho; retirar a autonomia do (a) trabalhador (a); ignorar a presença do (a) trabalhador (a), dirigindo-se apenas aos demais funcionários (as); falar com o trabalhador e/ou trabalhadora aos gritos; isolar fisicamente o (a) trabalhador (a) no ambiente de trabalho, para que ele (a) não se comunique com os demais colegas; transferir o (a) trabalhador (a) de setor para puni-lo (a); fazer brincadeiras de mau gosto para ridicularizar o (a) funcionário (a), entre outras atitudes.

O evento será certificado.


Fonte: Portal da Universidade de Brasília - UnB

EUA: Internautas antirracismo expõem na internet defensores da supremacia branca


Dois dias após os protestos em Charlottesville, liderados pelo grupo União da Direita – de inspiração ultranacionalista, e inclinação racista e nazista – internautas contrários ao movimento se mobilizam na internet para expor perfis de pessoas que participaram das marchas na sexta (11) e no sábado (12).

Um perfil criado no Twitter com o nome Yes, you are racist, (sim, você é racista) criado em 2012 está sendo usado para dar visibilidades a mensagens intolerantes e manifestações racistas. O objetivo é identificar pessoas que participaram dos protestos e simpatizantes da supremacia racial branca.

Durante as manifestações, um motorista identificado como James Fields, de 20 anos, atropelou diversos ativistas antirracismo que marchavam para marcar posição contra a União da Direita. A ativista Heatlher Heyer, de 32 anos, morreu e dezenove pessoas ficaram feridas.


Onda crescente

A imprensa e analistas norte-americanos avaliam que os protestos em Charlottesville, no estado da Virgínia, expuseram a força que a extrema direita norte-americana ganhou nos nos últimos meses. Os confrontos entre os integrantes do União da Direita, que convocou os protestos, e os grupos antifascistas revelaram um alto grau de intolerância e violência.

Como símbolo, vários manifestantes fascistas carregavam a bandeira dos Confederados, usada no século 19 por estados do Sul do país queriam se separar do Norte por discordar da abolição da escravatura. Além disso, também foram usadas tochas em referência à Ku Klux Klan, entidade banida nos EUA que lutou contra o movimento de direitos civis liderado por Martin Luther King Jr nos anos 1970.

Em oposição à extrema direita, estão os grupos liberais antissexistas, pró-imigrantes e integrantes do Black Lives Matter (Vida dos negros têm valor) conhecido pelas marchas em defesa da vida de negros.

Jornalistas e pessoas que acompanharam a marcha relataram a dificuldade da polícia local de coibir a violência verbal e física usada durante a marcha. A preocupação no país é com o crescimento da extrema direita.


Discurso

A imprensa e sociedade civil organizada cobram de Donald Trump uma posição mais rígida para condenar a ascensão de grupos extremistas. O discurso do presidente norte-americano no sábado, após os confrontos, foi considerado insuficiente. Trump disse que a “América grande novamente, deve ser para todos, e que não há lugar para o ódio".

Analistas, no entanto, criticaram o fato de Trump não ter sido mais específico, condenando diretamente o uso de elementos do Ku Klux Klan e o nazismo.

Após a cobrança, a Casa Branca afirmou ontem que Trump estava se referindo à Supremacia Racial Branca quando disse que não há lugar para o ódio no país.

O general H.R. McMaster, conselheiro de segurança do governo, também disse no domingo que o conflito de sábado em Charlottesville foi um “ato de terrorismo”.

Trump, no entanto, é acusado por críticos democratas e pela imprensa de ter dado espaço ao crescimento da extrema direita porque, desde a campanha, ele vem adotando um tom nacionalista, contra imigrantes latinos e muçulmanos.

O discurso mais contundente contra o acontecimento foi o do governador da Virgínia, Terry McAuliffe que foi amplamente repercutido em redes sociais e na TV americana, mais que o do próprio Trump.

McAuliffe disse que conversou com o presidente por telefone após os confrontos e pediu ações para frear o discurso de ódio e em favor da unificação do país.

Ele disse que nazistas e ultra racistas podem voltar para casa. “Não há lugar para vocês nos Estados Unidos. Nós trabalhamos para unificar o país e somos uma nação de imigrantes”, disse.


Fonte: Portal Agência Brasil

Delegacia de Teresina investiga novo caso de estupro virtual contra mulher


O primeiro caso de "estupro virtual" no Brasil, que rendeu a condenação de um técnico de informática de 34 anos na quinta-feira (10/8), estimulou outra mulher a fazer denúncia semelhante, também no Piauí. A informação é do delegado Daniell Pires, responsável pela repressão aos crimes de informática em Teresina.

Pires explica que não pode dar detalhes sobre o novo caso porque ele corre em segredo de Justiça, mas confirma que, como aconteceu com a primeira vítima, uma mulher foi ameaçada e coagida a praticar atos libidionosos e transmiti-los pela internet contra sua vontade.

No caso já julgado, o condenado ameaçou divulgar fotos íntimas de uma ex-namorada, estudante universitária de 32 anos. Para evitar a exposição, ela teve de enviar fotos e vídeos de conteúdo íntimo para ele.


Atentado à liberdade sexual

O advogado Fernando Peres, especialista em crimes cibernéticos, explica que o termo "estupro virtual" descreve um estupro que ocorreu em ambiente virtual. O crime de esturpo, esclarece, não ocorre somente quando há conjunção. Basta que alguém seja forçado a realizar ações que atentem contra sua liberdade sexual.

Peres acredita que não há necessidade de criar leis que abranjam, exclusivamente, o ambiente virtual, mas defende o aumento de pena para esses tipos de crimes. "Deveria ter um acréscimo de pena, porque quando algum material cai na internet, perde-se o controle. O fato traumatiza a vítima para sempre. Já vi pessoas tirarem a própria vida por situações similares", pontuou.

O especialista afirma que, por mais que haja cuidado nas redes sociais, a internet ainda dá uma falsa sensação de anonimato e liberdade. Assim, ações que não seriam realizadas fisicamente acabam acontecendo no mundo virtual. "Nos crimes contra a honra, calúnia e difamação, se forem cometidos por meios que facilitam a divulgação, como é a internet, deveria ter consequências mais graves. Sites de cunho adulto, por todo o mundo, capturam informações desse tipo", acrescenta.


Mulheres vítimas

De acordo com Peres, em seu escritório, a maioria dos casos de pessoas que sofrem com esse tipo de ameaça e violência é mulher. E, para ele, não é uma coincidência. "Em tempos de 'manda nudes', os 'prints' têm sido cada vez mais comuns. Há também pessoas que querem conseguir as imagens a qualquer preço, daí invadem um dispositivo, divulgam o conteúdo e ameaçam a vítima". Para o advogado, é preciso empoderar as mulheres para conscientizá-las de que a denúncia pode ajudá-las: "Algumas delas têm medo ou acham que não se enquadram em situações criminosas".

Para o delegado Daniell Pires, é muito importante a atenção do Legislativo para acompanhar as novas tecnologias, que são, cada vez mais, utilizadas em condutas criminosas: "As relações de convivência e consumo se dão mais no mundo virtual e físico, então é lógico que os crimes tendem a migrar".


Fonte: Jornal Correio Braziliense

'Levantaram minha saia e fotografaram minhas partes íntimas': A britânica que luta para criminalizar o 'upskirting'

Foto: Gina Martin
Gina Martin iniciou um abaixo-assinado na tentativa de que agressão que sofreu seja criminalizada na Inglaterra


A britânica Gina Martin, de 25 anos, se divertia em um festival de música quando um homem levantou sua saia e fotografou suas partes íntimas sem o seu consentimento. A prática é conhecida como "upskirting" e tem crescido a ponto de algumas fotos serem comercializadas ilegalmente em sites pornográficos.

Gina denunciou o assédio às autoridades, mas os agressores continuam impunes. Sua indignação a levou a criar uma campanha online para criminalizar o "upskirting" na Inglaterra (a prática já é crime na Escócia).

A petição recebeu mais de 58 mil assinaturas e o apoio do Partido Trabalhista britânico.

Segundo a polícia londrina, acusações de "voyeurismo" como essa são "levadas muito a sério" porque a prática é "abusiva e angustiante para as vítimas". A corporação chegou a encerrar o caso de Gina mas reabriu-o após a pressão público. As investigações estão "em andamento".

Leia o depoimento de Gina à BBC:

"No dia 8 de julho, eu estava no meio da plateia do festival de música British Summer Time, no Hyde Park, em Londres, dando risada com a minha irmã mais velha e esperando a banda The Killers subir no palco. Dois homens que estavam ao nosso lado nos oferecerem batatas fritas (que eu aceitei), e a partir daí começaram a ficar cada vez mais sinistros.

Um deles, de cabelo escuro, era ainda pior que seu amigo loiro. Ficava me fazendo perguntas, me olhava de cima a baixo e fazia piadas sobre mim com seu amigo. Daí ele se encostou em mim e acho que foi aí que aconteceu.

Ele colocou seu celular entre as minhas pernas, virou a câmera por baixo da minha saia e tirou fotos das minhas partes íntimas , em plena luz do dia.

Na época, eu não fazia ideia do que ele tinha feito. Minha irmã e eu estávamos empolgadas em assistir à banda que amamos desde a adolescência. Mas, esperando o show, notei pelo canto do olho que o cara loiro estava olhando para seu celular e dando risada. Era a foto da minha virilha coberta por uma tira de roupa de baixo. Mesmo sendo uma foto pequena, eu reconheci na hora que era eu.

Arranquei o telefone de sua mão e comecei a gritar que ele havia tirado uma foto por debaixo da minha saia. Ele gritou de volta - apontando o dedo para mim - que era uma foto do palco. Depois, me segurou pelos ombros e me empurrou, exigindo que eu devolvesse o celular. Como não conseguia me soltar, comecei a gritar por socorro e buscar o olhar do máximo de pessoas que pude.

Passei o celular para a mão de uma menina do meu lado, com quem eu havia conversado minutos antes. Ele avançou contra ela agressivamente. "Devolva meu telefone", ele exigiu. Ela recusou.

Uma pessoa ao meu lado me disse "Corra!" e eu saí correndo, pegando o telefone dele de novo e chorando para a multidão me deixar passar.

Corri o mais rápido que pude, mas conseguia ouvi-lo atrás de mim, gritando e exigindo o celular.

Quando alcancei os seguranças, eles formaram um círculo ao meu redor. Tentei acalmar o agressor, mas não funcionou. Um segurança me mandou colocar o telefone no bolso da calça dele. Obedeci.

Esperamos a polícia chegar, e pedi para ficar junto à multidão para cantar. Queria fingir que aquilo tudo não estava acontecendo. Os seguranças me deixaram a três metros de distância. Eu e minha irmã nos abraçamos e nos forçamos a dançar a primeira música do The Killers. Na verdade, estava balbuciando a letra e a minha irmã estava tentando não chorar.

Quando os policiais chegaram - um homem e uma mulher -, fiz o que pude para explicar o ocorrido, ainda que estivesse completamente destruída. Eles foram gentis e solidários. Um deles me disse que eu "deveria poder ir a um show num calor de 30ºC e usar saia sem precisar se preocupar com esse tipo de coisa".

Eles questionaram o cara loiro e, quando voltaram para falar comigo, o policial homem me disse: "Infelizmente, tive que olhar a foto. Ela é mais reveladora do que você gostaria... mas não é explícita. Então não há muito o que possamos fazer, porque não dá para ver nada ruim. Vou ser honesto: você talvez não receba o nosso retorno".

Ele me perguntou se eu queria fazer o boletim de ocorrência e na hora não achei que conseguiria. Eu estava no meio de um parque, chorando, e mal conseguia pensar. Só queria aproveitar o que restava da minha noite (pela qual havia pagado caro) e pensar naquilo depois.

A polícia me garantiu que tinha obrigado o homem a apagar a foto. Àquela altura, por causa do estado em que eu estava, não me dei conta de que a foto era a minha prova.

A foto não foi considerada explícita porque eu estava de calcinha - se eu estivesse sem nada, o episódio talvez tivesse um desfecho diferente -, mas não vejo como a minha roupa deva alterar a reação da polícia.

Cinco dias depois, eu estava em um ônibus indo para outro festival de música com uma mala de roupas que passei tempo demais fazendo. Devia ter levado uma saia, ou seria uma ideia estúpida, diante de tudo o que aconteceu?

Recebi um telefonema da polícia, informando que meu caso havia sido encerrado e confirmando que a foto havia sido apagada. Com a cabeça fresca para pensar, não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Não era o suficiente.

Passados alguns dias, percebi que os homens estavam no fundo de uma foto minha com a minha irmã durante o show, e postei a imagem junto com um texto no Facebook. Eu queria constrangê-los. Eu queria que alguém os identificasse.

Minha postagem viralizou no Twitter e no Facebook. Outras mulheres contaram histórias parecidas, e foi aí que eu percebi que se trata de um problema maior.

Comecei a receber mensagens, algumas de apoio e outras de ódio.

Algumas pessoas me disseram para usar uma saia mais longa, para parar de buscar os holofotes e para parar de mentir. Outras me disseram que eu estava em busca de publicidade e que a culpa era minha. Iniciei um abaixo-assinado no site Care2 para que meu caso seja reaberto (até o momento, mais de 58 mil pessoas assinaram a petição).

Tive dificuldades em conseguir fazer qualquer coisa naquela semana. Por sete dias, fui assediada e recebi mensagens horríveis.

Em determinado momento, me tornei um meme - adolescentes se marcavam no meu post com frases como 'viva la upskirters!' com emojis de risadas. Tive insônia por causa da atenção que recebi e do estresse, e perdi meu apetite. Acho que você nunca entende como atribuir a culpa à vítima te afeta - até que isso aconteça com você. É horrível.

Comecei a pesquisar como levar o caso à Justiça e, em conversas com advogados, amigos e organizações como Safe Gigs for Women (Shows seguros para mulheres, em tradução livre), descobri que os agressores muitas vezes não são formalmente acusados.

Isso tem que mudar, e é por isso que estou fazendo uma campanha para tornar esse tipo de foto um crime sexual na Inglaterra. Na Escócia, ela já é.

Desde então, meu caso foi reaberto e espero que os homens sejam indiciados. Mas não se trata apenas do meu caso. Meu próximo passo é tentar mudar as leis, de modo que fotografar as partes íntimas de alguém seu o seu consentimento seja considerado crime sexual, não apenas um incômodo público."


No Brasil, diversos casos semelhantes aos de Gina Martin foram registrados, por exemplo, no transporte público. Perpetradores podem, dependendo do caso, ser acusados de crimes como abuso ou assédio sexual, uso indevido de imagem, constrangimento ilegal e, se as vítimas forem menores de idade, pedofilia.


Fonte: Jornal BBC Brail (Reino Unido)

DF ganha primeiro ambulatório especializado em tratamento de transexuais

Na inauguração teve a produção de grafites no muro interno do Hospital Dia, com temática alusiva às pessoas trans.


Brasília ganha, nesta segunda-feira (14/8), o primeiro Ambulatório Trans do Distrito Federal. A unidade, localizada no Hospital Dia, na 508/509 Sul, tem equipe multiprofissional, que promoverá o atendimento a transexuais e travestis. Ocupando cinco salas, o serviço prestará assistência em psicologia, psiquiatria, serviço social, endocrinologia e enfermagem.

Mais adiante, o atendimento será ampliado com a inclusão de especialidades como ginecologia e urologia. Para a inauguração, na tarde de segunda, foram programadas apresentações artísticas e a produção de grafites no muro interno do Hospital Dia, com temática alusiva às pessoas trans.

Para ter acesso aos serviços do ambulatório, a partir do dia 21, os interessados poderão se dirigir à unidade de segunda a sexta-feira, das 7h às 12h e das 14h às 16h, e agendar a participação nos grupos de entrada, que funcionarão às terças, das 10h às 11h, e às quintas-feiras, das 14h30 às 16h.

À frente da programação de inauguração do ambulatório, estão a Secretaria de Saúde e a Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e direitos Humanos, além das seguintes instituições sociais e unidades do serviço público: Instituto Brasileiro de Transmasculinidade (IBRAT); Associação do Núcleo de Apoio e Valorização à Vida de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Distrito Federal e Entorno (ANAVTRANS); União Libertária de Travestis e Mulheres Transexuais; Defensorias Públicas da União e do Distrito Federal, Coordenação de Diversidade da Subsecretaria de Direitos Humanos e CREAS da Diversidade da Subsecretaria de Assistência Social.


Fonte: Jornal Correio Braziliense

OPAS lança nova iniciativa para eliminar a transmissão materno-infantil de quatro doenças

Para acabar com a transmissão de mãe para filho de quatro doenças até 2020, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) lançou o Marco para a Eliminação da Transmissão Materno-Infantil do HIV, Sífilis, Hepatite e doença de Chagas.


Todos os anos, estima-se que 2,1 mil crianças na América Latina e no Caribe nasçam com HIV ou o contraiam de suas mães; 22,4 mil estejam infectadas com sífilis; cerca de 9 mil nasçam com doença de Chagas; e 6 mil contraiam o vírus da hepatite B. Se não forem detectadas e tratadas a tempo, essas infecções podem causar abortos espontâneos, malformações congênitas, problemas neurológicos e cardíacos, cirrose, câncer de fígado e, em alguns casos, até a morte.

Para acabar com a transmissão de mãe para filho dessas quatro doenças até 2020, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) lançou o Marco para a Eliminação da Transmissão Materno-Infantil do HIV, Sífilis, Hepatite e doença de Chagas (EMTCT-PLUS) – acesse em inglês ou em espanhol. Trata-se de um roteiro com estratégias e intervenções que visam às mulheres antes e durante a gravidez, bem como novas mães e seus bebês.

“O novo quadro é uma oportunidade para integrar e redobrar esforços para diagnosticar e tratar mulheres grávidas durante exames pré-natais e prevenir abortos espontâneos, malformações fetais e óbitos por sífilis, além de evitar que crianças sejam infectadas com doenças com graves consequências para a saúde a longo prazo, como HIV, hepatite B ou doença de Chagas”, disse Suzanne Serruya, diretora do Centro Latino-Americano de Perinatologia (CLAP) da OPAS.

Desde 2010, os países da América Latina e do Caribe têm trabalhado para eliminar a transmissão de mãe para filho do HIV e da sífilis como problemas de saúde pública por meio da Estratégia para a Eliminação da Transmissão Materno-Infantil (ETMI) do HIV e da Sífilis Congênita, coordenada pela OPAS. Desde então, os países conseguiram reduzir em 55% as novas infecções em crianças, de 4,7 mil para 2,1 mil entre 2010 e 2015. Durante esse período de cinco anos, evitou-se que quase 28 mil crianças se infectassem com o HIV.

Com base no sucesso dessa iniciativa, a OPAS criou o Marco EMTCT-PLUS, que incorpora uma plataforma já consolidada para acabar com a transmissão de mãe para filho da doença de Chagas e da hepatite B.


Prevenindo a transmissão

Para reduzir ao máximo possível a transmissão materno-infantil dessas quatro doenças, a iniciativa da OPAS propõe a triagem universal de todas as mulheres grávidas, uma política que todos os países da região e do mundo adotaram para o diagnóstico de HIV e sífilis, embora ainda não para doença de Chagas e hepatite B.

A partir de 2016, os 51 países e territórios das Américas incluíram a hepatite B em seus calendários oficiais de vacinação, com uma dose da vacina administrada aos dois, quatro e seis meses de idade. Além disso, 21 países incluíram uma dose da vacina contra a hepatite B para recém-nascidos. Estima-se que a cobertura regional de vacinação para a série de três doses alcança 89% e a cobertura da dose para recém-nascidos é de 75%. O sucesso dos programas de vacinação nas Américas sugere que a eliminação da transmissão perinatal e infantil da hepatite B é viável. No entanto, o acesso deve ser expandido para garantir que a vacina atinja pelo menos 95% das crianças, começando com uma dose para recém-nascidos ainda nas primeiras 24 horas de vida.

Até o momento, a luta contra a doença de Chagas se concentrou no controle vetorial, limpeza ambiental e no controle de sangue para transfusões. No entanto, o próximo passo para eliminá-la como um problema de saúde pública é se concentrar na prevenção da transmissão de mãe para filho, que atualmente representa cerca de um terço das novas infecções. Estima-se que 1,12 milhão de mulheres em idade reprodutiva na região estão infectadas com T. cruzi, o parasita que causa a doença. O Marco EMTCT-PLUS exige que todas as mulheres grávidas sejam examinadas e que os bebês daquelas que são positivas sejam testados e tratados, bem como as mães após o parto.

“Queremos que a próxima geração seja livre não apenas do HIV e da sífilis, mas também da doença de Chagas e da hepatite B”, disse Marcos Espinal, diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis e Análise de Saúde da OPAS. “Temos ferramentas econômicas para evitar que crianças sejam infectadas por suas mães, mas precisamos dessas medidas para alcançar todos os que precisam delas”.


Fonte: Portal da ONU

Artigo - Proibição do tráfico de escravos no século XIX ilustra cinismo e racismo na formação social do Brasil

Ilustração do abolicionista britânico Paul Harro-Haring do contrabando de escravos no Rio: apesar das tentativas de cumprir a lei, ela foi largamente burlada


Por: Cesar Baima


Imposta pela Inglaterra como uma das condições para reconhecimento da independência de 1822, já sobre diversas restrições determinadas em tratados dos ingleses com Portugal quando o Brasil ainda era colônia, a proibição do tráfico negreiro da África para o país no início do século XIX pode ser vista como o início do fim da escravidão aqui. Mas até a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888, que finalmente aboliu a escravatura no Brasil, último país das Américas a fazê-lo, a prática se manteve no centro da vida econômica e política brasileira.

E é justamente tendo a proibição do tráfico, sua fiscalização, burla e consequências como linha mestra que a historiadora Beatriz Mamigonian, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), traçou um retrato do Brasil oitocentista no recém-lançado livro “Africanos livres – A abolição do tráfico de escravos no Brasil” (Ed. Companhia das Letras). A partir de uma minuciosa pesquisa documental, Beatriz usa relatos de casos de indivíduos e grupos de negros apreendidos das mãos de traficantes, com alguns dos personagens por vezes voltando a aparecer no texto, para compor o cenário que os africanos “libertos” e escravos enfrentavam no Brasil no século XIX e sua influência na construção social do país.

Com seu trabalho, Beatriz derruba a antiga noção de que a proibição foi só “para inglês ver”, demonstrando que na verdade ela pode ser considerada um exemplo antigo do crônico problema brasileiro de leis que “não pegam”, escancarando a tragédia moral e o cinismo oficial que marcaram, e ainda marcam, o Brasil como nação. E não é por menos: apesar das apreensões, que foram ficando mais raras à medida que a década de 1830 avançava, só entre o início dos anos 1830 e 1850 cerca de 800 mil africanos foram trazidos ilegalmente para o país, num ritmo que rivaliza com o registrado antes da proibição.

- Discordo da interpretação, que é senso comum, de que a lei de 7 de novembro de 1831, que proibiu a entrada de escravos no país, teria sido “para inglês ver”. Ela parte do princípio de que nunca houve intenção de aplicar a lei, que era para ser só de fachada, e a pesquisa aponta em outro sentido - afirma. - Houve disposição para acabar com o tráfico e a lei de 1831 é uma medida até mais rígida que o tratado assinado com a Inglaterra em 1826. Se depois não pôde ser aplicada, isso também faz parte da história, mas não estava previsto de antemão. Os ingleses não se deixavam enganar tão facilmente. Mas ela foi largamente burlada e é o exemplo paradigmático dessas leis que “não pegam”. O sistema de conivência com o tráfico e com a escravização ilegal dessas pessoas envolveu muita gente: de funcionários de alfândega, delegados, juízes e padres a ministros e conselheiros de Estado. Como a lei declarava livres os africanos que fossem importados depois daquela data e ainda prometia penalizar os traficantes e os detentores dos escravos ilegais, foi necessário forjar provas de propriedade e construir todo um discurso de que a lei não podia ser aplicada em nome do bem público. Era tanta gente que devia ser criminalizada que todos se protegiam. Sobre os paralelos com o presente, são muitos. Espero que os leitores tirem suas próprias conclusões.

Mas mesmo “salvos” das mãos dos traficantes, os africanos capturados ilegalmente e depois classificados como “livres” só tinham a liberdade na palavra. Isto porque a própria lei de 1831 e os tratados anteriores obrigava-os a trabalhar para supostamente custear sua “repatriação” para a África. Assim, eles acabavam sujeitos a condições similares à escravidão durante anos, por vezes muito mais do que o regulamentado, servindo nas casas “de família”, como de vários nobres do Império, ou funcionários públicos, nas instituições públicas como os arsenais de guerra, de Marinha, as fortalezas e quartéis, e em obras, como as estradas e de modernização das cidades na segunda metade do XIX.

- As condições de trabalho deles eram muito parecidas com as dos escravos – conta Beatriz. - O alvará determinava que trabalhassem por 14 anos e, entre os que sobreviveram para reivindicar a “plena liberdade”, muitos tinham trabalhado mais de 20, alguns até 30 anos. Trabalhavam sem remuneração, só pela comida, por alojamento e roupas. O Estado Imperial brasileiro poderia ter tratado esses africanos sob sua responsabilidade como pessoas livres que aprendessem ofícios e ganhassem autonomia. Mas nunca fez.

A proibição do tráfico também teve como consequência um aprofundamento das divisões e desigualdades sociais no Brasil, em especial envolvendo os negros, que podiam ser tanto escravos, quanto alforriados, emancipados, libertos, livres etc. E isso influenciou nos conflitos e na luta abolicionista na época e no reforço do racismo na sociedade brasileira de então e de agora, aponta Beatriz.

- A sociedade brasileira já era estratificada antes da independência. A taxa de alforrias no Brasil sempre foi alta em relação a outros territórios escravistas das Américas, o que significa que, à altura da independência, para além dos livres brancos e dos escravos havia uma camada de pessoas livres de origem africana, indígena ou mestiça e também um bom número de libertos – lembra a historiadora. - A distinção entre quem era livre e quem era escravo não era nada fácil. Era uma das questões de direito mais debatidas, pois afetava muitas vidas. E não era uma questão que envolvia apenas os africanos trazidos depois de 1831, mas também muitos libertos condicionais, que viviam num limbo jurídico. O que procurei mostrar é que as chances dos “africanos livres” gozarem a liberdade no Brasil se estreitaram em virtude do imenso contrabando e do tratamento de apátridas que recebiam aqui. Não eram cidadãos brasileiros, mas também não tinham nacionalidade que os protegesse.

E por trás disso tudo, claro, estavam interesses econômicos associados ao poder político. A ascensão do liberalismo e do sistema capitalista a partir do século XIX fomentou o comércio ilegal de escravos para o Brasil devido à demanda dos proprietários de terras por mão de obra barata para a produção de açúcar, café e algodão, principais artigos do país no comércio internacional da época.

- A demanda por produtos tropicais teve aumento no início do século XIX, o algodão para a indústria têxtil inglesa, o café e o açúcar para o consumo das camadas médias e trabalhadoras na Europa e nos Estados Unidos – destaca Beatriz. - Foram as regiões escravistas que responderam melhor a essa demanda e assim a escravidão se reforçou no Sul dos Estados Unidos, em Cuba e no Brasil enquanto no resto das Américas o movimento foi de abolição gradual. Há muito tempo os historiadores veem a relação entre o capitalismo e a escravidão com complexidade e não defendem que eram incompatíveis. O capitalismo se beneficia da escravidão e do trabalho forçado, visto que reduz muito os custos com mão de obra.

Desta forma, os interesses econômicos também incentivaram as autoridades brasileiras de então a fazerem “vista grossa” para este comércio ilegal e as estratégias para se esquivar desta ilegalidade, como dizer que libertos eram escravos que morreram ou alegar “boa-fé” na sua aquisição.

- O que procuro demonstrar no livro é que houve conflito no seio do governo imperial, ao longo das décadas, a respeito da repressão ao tráfico e da aplicação da lei de 1831 - resume. - Entre 1830 e 1834, houve muita gente disposta a apreender africanos, emancipá-los, e mesmo reprimir o tráfico. Dali em diante, porém, a pressão dos proprietários de terras sobre o Congresso foi muito grande e as dificuldades das forças de repressão aumentaram. E de 1837 em diante, com a ascensão de um gabinete composto por políticos conservadores que prometeram proteger os proprietários de terras, a conivência com o tráfico e os traficantes passou a política de Estado. Os argumentos da aquisição em “boa fé”, da honradez dos proprietários de terras e o da defesa da “ordem pública”, que seria ameaçada pela emancipação dos africanos, travavam a aplicação da lei. No começo, tinha um sentido de proteger a economia, que dependia da mão de obra escravizada, mas também provinha de uma fraqueza do Estado imperial, recém-independente, que não conseguia impor medidas contrárias aos interesses das elites regionais, pois dependia de apoio político.


Fonte: Jornal O Globo

Jogo virtual educativo de alunos da UFPB aborda violência contra a mulher

Foto: Diogo Almeida (G1)

Projeto foi mostrado no estande do LabTEVE no Expotec 2017



Um projeto em desenvolvimento por estudantes da graduação e pós-graduação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) utiliza a plataforma virtual para capacitar professores e profissionais da educação sobre como identificar, abordar e lidar com a violência contra a mulher dentro das escolas. Inspirado num projeto semelhante aplicado com profissionais de postos de saúde de João Pessoa, a plataforma foi apresentada na edição 2017 da Expotec, realizada até esta sexta-feira (11) no Centro de Convenções de João Pessoa.

De acordo com o estudante de engenharia em computação Davi Campos Gomes, o jogo está sendo construído no Laboratório de Tecnologias para o Ensino Virtual e Estatística (LabTEVE), por meio de uma equipe multidisciplinar que envolve alunos das áreas de informática, psicologia, serviço social e enfermagem.

Cenas do jogo Caixa de Pandora, que serve de base para o novo game desenvolvido pelo LabTEVE da UFPB


“O jogo consiste em um serious game, que visa mostrar um conteúdo educacional para os jogadores. Nessa modalidade, não há um vencedor ou um perdedor no jogo, e sim um aprendizado constante por meio da interação com os personagens e com os diálogos”, explica Davi, que faz parte da equipe do LabTEVE.

A plataforma do novo jogo, que ainda não tem nome definido, está sendo feita com base no serious game Caixa de Pandora, desenvolvido pela então estudante de doutorado e atual professora de enfermagem Luana Rodrigues. Em Caixa de Pandora, o jogador conhece a vida de Marta, uma mulher que está em situação de violência doméstica e precisa recorrer aos serviços públicos de saúde.
“Fizemos um levantamento da realidade dos profissionais das Unidades Básicas de Saúde da Família de João Pessoa. O jogo foi validado com os profissionais e houve essa mudança de conceito por parte destas pessoas, que conseguiram identificar na personagem muitas das pacientes que encontram na vida real”, diz Luana.

O aprendizado por meio do jogo, que está disponível para download gratuito no site do LabTEVE, se dá na base cognitiva e afetiva, em que o jogador precisa passar por três fases, que representam as etapas da vida de Marta, e à cada fase, fica mais próximo de abrir a caixa de pandora. “Abrir a caixa significa compreender a questão da violência contra a mulher enquanto um problema social que impacta na vida e na saúde das mulheres que a sofrem”, explica a descrição do jogo.

Segundo Luana, o novo jogo está sendo desenvolvido como o projeto de mestrado de uma estudante e adapta a ideia de Caixa de Pandora para o ambiente escolar. “Da mesma forma que foi com os profissionais de saúde, queremos entender como os professores e profissionais da educação estão lidando com essas situações. Usando a estratégia do jogo anterior, queremos levar esse novo projeto primeiro para os professores, para então chegar nos estudantes”, completa.

Abrir a caixa significa compreender a questão da violência contra a mulher enquanto um problema social que impacta na vida e na saúde das mulheres que a sofrem


Fonte: Portal G1

Entrevista - Como o tabu em torno da menstruação prejudica a saúde das mulheres

Mulher nepalesa durante o Rishi Panchami, data em que se pede perdão pelos pecados cometidos durante a menstruação


A menstruação é um tabu em muitos países do mundo. Nas nações ricas, porém, a maioria das meninas e mulheres tem acesso à informação – seja pela internet, por meio de um médico ou outra fonte – sobre os tipos de sangramento vaginal que uma mulher pode encarar ao longo da vida.

Os sangramentos vaginais existentes incluem o fluxo menstrual, mas também sangramentos pós-parto, por aborto espontâneo e causados por doenças como endometriose e câncer do colo do útero. O acesso à informação e a troca de experiências com outras mulheres permite que elas diferenciem um sangramento saudável de um não saudável.

Quase todas as habitantes dos países desenvolvidos têm, também, acesso a água limpa, saneamento básico, produtos de higiene e privacidade para lidar com o sangramento adequadamente e com dignidade.

Esses requisitos básicos, no entanto, não são acessíveis a boa parte das mulheres de países de renda média e baixa, a mulheres que vivem em abrigos, campos de refugiados ou em trânsito, a moradoras de rua e às mulheres que vivem em outras situações de precariedade, como nas prisões brasileiras, por exemplo.

Um estudo recente, publicado no dia 27 de julho no jornal científico britânico BMJ, compila informações de dezenas de pesquisas feitas nos últimos anos sobre saúde da mulher e higiene íntima durante os sangramentos vaginais.

Seu objetivo é tratar de como, além da falta de acesso a saneamento ou suprimentos básicos para lidar com os sangramentos vaginais, o silêncio ao redor do tema também põe a saúde das mulheres em risco, principalmente em países de renda média e baixa.

De acordo com o estudo, meninas que vivem nesses países “frequentemente não são informadas sobre a menarca [primeira menstruação] antes do primeiro episódio de sangramento, e estudos destacaram as concepções erradas e a vergonha encobrindo a menstruação em muitas sociedades, e o medo e ansiedade que as garotas experimentam na menarca e ao menstruar na escola. Mesmo quando a chegada da menstruação é celebrada, elas são ensinadas a esconder e lidar com a menstruação discretamente”.

Considerando que mais de 2,4 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso a saneamento básico e que mais de 800 milhões de mulheres e meninas entre 15 e 49 anos estão menstruadas todos os dias, é provável que um número significativo delas não tenha acesso às condições adequadas para tratar de episódios leves ou intensos de sangramento, segundo estima o estudo.

O número de mulheres em situação precária nesse aspecto supera ainda mais a estimativa se considerarmos os outros tipos de sangramento fora a menstruação, ou o fato de que há mulheres menstruando antes dos 15 anos e acima dos 49.

No Níger, país africano localizado a noroeste do continente, por exemplo, apenas 44% das mulheres declaram ter tudo que precisam para passar pela menstruação e no estado de Kaduna, na Nigéria, somente 37%.
"As experiências dos indivíduos relacionadas à saúde ao longo da vida dependem dos recursos disponíveis nos lugares onde moram, e da agência que são capazes de exercer considerando oportunidades e restrições físicas e sociais. O primeiro passo é romper o silêncio em torno do tópico do sangramento vaginal, a nível local e global". Trecho da conclusão do estudo

O Nexo entrevistou, por telefone, a pesquisadora americana Marni Sommer, uma das autoras do artigo e professora assistente do departamento de “Sociomedical Sciences” (ciências sociomédicas, em uma tradução livre) da Universidade de Columbia, em Nova York.

Por que as mulheres lidam em segredo com a menstruação na maioria das culturas? De onde isso vem?

MARNI SOMMER Há mais literatura sobre menstruação do que sobre outros tipos de sangramento vaginal, então nosso artigo foi uma revisão do que conseguimos achar e do que sabemos. Em muitas culturas e sociedades, há diferentes crenças, embora não seja possível generalizar totalmente, de que o sangue menstrual polui, é sujo e vergonhoso. Há ainda sociedades em que o sangue menstrual foi ou é percebido como muito poderoso, como algo a ser temido. Por isso, acaba sendo algo que meninas e mulheres em muitas culturas têm de esconder, por ser percebido ou como sujo ou como perigoso.


Quais são as consequências práticas dessa realidade?

MARNI SOMMER Descobrimos que o fato de que o sangramento é algo a ser escondido gera vários desafios. No caso da menstruação, uma vez que elas tomam conhecimento do que é, a maioria das meninas e mulheres sabe que as outras estão tendo uma experiência semelhante todo mês. Mas quando se trata dos outros tipos de sangramento vaginal dos quais falamos no artigo, como sangrar depois do parto e o sangramento intenso da endometriose, em muitas culturas, não é algo de que as pessoas falam com frequência.

Um dos desafios, portanto, é que mulheres e meninas estão tentando lidar com isso sozinhas, sem apoio, informação ou orientação, seja de pessoas próximas ou de profissionais de saúde. Elas podem não saber qual sangramento é normal e qual é anormal, após passarem por uma dessas condições clínicas, nem quando deveriam procurar assistência médica.

Também há o medo e a vergonha em torno do sangramento, o que significa que ela pode estar sofrendo de ansiedade e se preocupando por não saber o que está acontecendo e quem pode ajudá-la. E há a orientação e as informações práticas que elas podem não estar recebendo [por conta do tabu] e que as manteriam saudáveis, dependendo do sangramento.

Algo para que queríamos chamar atenção, de que se fala muito pouco, é se elas têm acesso a um lugar seguro e com privacidade, seja em casa, no trabalho, ou fazendo compras, para se trocarem se estiverem sangrando, que tenha água para se lavarem e produtos de higiene. Essas são questões muito práticas que surgem quando falamos de sangramento vaginal.


Como o sangramento vaginal limita a vida das mulheres em países de renda média e baixa?

MARNI SOMMER Mulheres e meninas são muito resilientes. Sempre me impressiona o que as pessoas fazem e como se viram apesar de tudo que precisam enfrentar. Mas qualquer uma das atividades diárias que têm de ser feitas para sobreviver, seja buscar água, ir à escola, ao trabalho, ou ao mercado; ou mesmo quando se pensa em todas as mulheres que vivem em abrigos, campos de refugiados ou em trânsito, pegam barcos no [mar] Mediterrâneo, andam longas distâncias para chegar a um lugar seguro, levanta-se a questão de como elas estão fazendo caso estejam sangrando. Sempre que eu personalizo a questão e penso em como eu faria, parece muito difícil.


Você sabe algo sobre o Brasil nesse aspecto?

MARNI SOMMER Nós olhamos mais para países de renda média e baixa, mas se você pesquisar pelas taxas de câncer de colo de útero e endometriose no Brasil, provavelmente terá um palpite a respeito [da quantidade de mulheres que estão enfrentando sangramentos vaginais intensos]. 

Certamente, mulheres e meninas pelo Brasil também estão dando à luz e tendo abortos espontâneos, então sabemos que o sangramento [além do menstrual] está acontecendo. A pergunta que surge é se nas regiões mais pobres do país elas têm acesso às informações de que precisam, se culturalmente é aceito que elas falem com alguém sobre isso, se elas têm acesso a água limpa, saneamento e produtos de higiene, como absorventes.


Há alguma política ou norma global voltada ao acesso, pelas mulheres, às condições básicas para conviver com o sangramento vaginal?

MARNI SOMMER Não que eu saiba, não acho que exista uma política. Há esforços para tentar garantir que as pessoas tenham acesso a água e saneamento, atenção básica, mas acho que não há nada que olhe especificamente para essa questão.


O estudo menciona que o primeiro passo para melhorar o trato das mulheres com os vários tipos de sangramento vaginal é romper o silêncio, local e globalmente. Como fazer isso?

MARNI SOMMER Uma das formas é chegar à mídia e às redes sociais, assim evitamos que apenas acadêmicos pensem sobre isso e chegamos aos médicos, a quem elabora as políticas públicas, e às próprias meninas e mulheres, que começam a ler sobre o assunto.


Fonte: Portal Nexo

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