quinta-feira, 6 de abril de 2017

O livro 'antiprincesas' que ensina meninas a se rebelarem

Ilustração: Elina Van Dam

Simone Biles, ginasta americana de 19 anos que impressionou o público nas Olimpíadas de 2016.



"Era uma vez uma menina que adorava a escola." Assim o livro infantil Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes começa a contar a história (verdadeira) de Malala Yousafzai, adolescente paquistanesa vencedora do prêmio Nobel e que levou um tiro do grupo extremista Talebã em 2012 por defender o direito das meninas à educação.

O livro usa ilustrações e narrativa de conto de fadas para contar histórias de cem mulheres inspiradoras ao redor do globo. A ideia é ensinar meninas a se rebelar contra estereótipos de gênero e a seguir seus sonhos.

Desde o lançamento, famílias têm compartilhado nas redes sociais as impressões de seus filhos sobre as garotas rebeldes.

Ilustração: Sara Bondi
Malala Yousafzai levou um tiro de extremistas por fazer campanha para meninas terem direito de ir à escola


Brynn tem 5 anos e vive em Chicago, nos Estados Unidos. Ela ficou fascinada pela história de Manal al-Sharif, ativista conhecida como "a mulher que se atreveu a dirigir" depois de desafiar a proibição, na Arábia Saudita, de elas guiarem veículos.

"Brynn ficou me perguntando: 'então eles disseram que ela não podia dirigir?'. E eu respondia: 'isso mesmo'. Aí ela sorria maliciosamente e dizia: 'mas ela dirigiu'", contou sua mãe, Patti.

Brynn ficou tão inspirada pela história que copiou o retrato dela, que sua mãe enviou a Manal (veja a postagem, em inglês).

Outra estrela perfilada é a ginasta Simone Biles, uma adolescente americana cujos saltos e giros impressionaram o mundo na Olimpíada do Rio de Janeiro, no ano passado.

Mas há também mulheres menos conhecidas, incluindo Grace Hopper, a pioneira cientista da computação americana, e a jornalista que se tornou levantadora de pesos Amna Al Haddad, dos Emirados Árabes Unidos.


Contra estereótipos

Duas autoras italianas, Elena Favilli, de 34 anos, e Francesca Cavallo, de 33, estão por trás do livro que virou um sucesso nos Estados Unidos depois que uma campanha de crowdfunding (vaquinha virtual) arrecadou US$ 1 milhão (R$ 3,12 milhões) em 2016.

Em uma entrevista à BBC, Favilli explicou que elas tiveram a ideia quando perceberam que as obras para crianças ainda são recheadas dos tradicionais estereótipos de gênero.

"Os livros infantis não mudaram desde que somos crianças: os homens ainda são os protagonistas, e as mulheres ainda são as princesas."

Disparidades na representação de homens e mulheres em livros infantis tem sido uma questão há muito tempo. Em 2011, acadêmicos da Universidade do Estado da Flórida descobriram que o preconceito de gênero nas obras existe há mais de 100 anos.

Eles identificaram que, de quase 6 mil livros ilustrados publicados entre 1900 e 2000, apenas 7,5% mostravam animais do sexo feminino como protagonistas.

Livros e ilustrações são cruciais para definir como as crianças veem e entendem o mundo. Prova disso seria que, aos 6 anos, meninas se veem como menos talentosas ou "brilhantes" que meninos, de acordo com a pesquisa, publicada em janeiro deste ano.

O estudo sugere que tanto meninas como meninos dessa idade tendem a identificar como "muito, muito espertos" personagens que são masculinos.

"Se todas as crianças lerem que as princesas têm que esperar serem salvas pelo príncipe, então a mensagem que elas aprendem é que mulheres não são tão valiosas quanto homens, que não somos iguais", disse Favilli.


Fora da ficção

As autoras não são as primeiras a tratar da questão da gênero com crianças.

Também cansada de ver meninas retratadas como princesas, a psicóloga americana Stephanie Tabashneck lançou em 2015 um livro de colorir que destaca garotas de diversas etnias em empregos valorizados, como cirurgião, professor e engenheiro.

A Princesa Sabichona, de Babette Cole, é outro exemplo de uma história de desafia as normas, de acordo com a professora Gemma Moss, especialista em educação.

Mas Favilli e Cavallo acreditam que a ênfase em mulheres rebeldes que desafiaram normas sociais na vida real traz uma mensagem importante para as crianças, que geralmente apenas leem sobre meninas da ficção.

"Historicamente, as conquistas das mulheres foram diminuídas", diz Favilli.

"O termo rebelde tem conotações negativas em todas as culturas, e geralmente é considerado ruim quando associado com a mulher. Nossa mensagem é que é aceitável e até mesmo bom para as mulheres quebrar regras."


Campanha feminista

Robyn Silverman, especialista em desenvolvimento infantil do Estado americano de New Jersey, reúne seus filhos Tallie, de 8 anos, e Noah, de 6, para ler as histórias da obra.

Ela comprou o livro na época do início da campanha #StillShePersisted, criada nos Estados Unidos depois que a senadora Elizabeth Warren foi forçada a parar seu discurso no plenário ao criticar Jeff Sessions, procurador-geral então indicado pelo presidente Donald Trump.

"Escrevi uma dedicação a Tallie dizendo que sempre se rebelasse", conta Silverman.

"No livro, há exemplos concretos de mulheres que lutam pela educação das meninas quando isto é ilegal, ou pelo voto feminino quando elas não são aceitas na política - isto mostra para meninas que é possível superar qualquer coisa", acrescenta.

Silverman diz que seu filho também gosta das histórias:

"Isso é muito importante, porque homens precisam ver que mulheres devem usar suas habilidades e seguir seus sonhos para progredir da mesma maneira que eles - não se trata de dizer que as mulheres são melhores do que os homens."


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

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